MÁRIO BORTOLOTTO é um escritor e dramaturgo à margem do que se convencionou chamar “produto cultural”. Desde que fundou seu grupo de teatro Cemitério de Automóveis, no final dos anos setenta em Londrina, ele monta e dirige seus textos de maneira independente. Adepto do bom e velho “faça você mesmo” já escreveu mais de sessenta peças, algumas delas publicadas em livro em 3 volumes. Admirador de Bukowski, Kerouac e a geração beat (o nome Cemitério de Automóveis é uma alusão ao poema “Obligatto do Bicho Louco”, do poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, importante nome da geração beat.), escreveu também romances e um livro de poesia. Além de dirigir, atua na maioria de suas montagens.

Bortolotto não faz concessões ao seu trabalho, não se deixa envolver pela tal cultura da sobrevivência e é radical em sua forma de fazer teatro. Suas personagens, verdadeiros outsiders, possuem singularidade e autenticidade ímpares, o dramaturgo escreve com grande conhecimento de causa pois é com essas figuras que convive, muito embora negue a aura de maldito que lhe é atribuída. Seu texto é extremamente político, na melhor acepção da palavra, sem jamais ser panfletário. Crítico sarcástico e feroz de toda a hipocrisia da sociedade, parte do indivíduo para falar do coletivo.

Com a recente montagem de duas de suas peças por Raul Cortez, o autor de “Éramos todos Thunderbirds”, “Medusa de Ryban” , “Nossa vida não vale um chevrolet”, entre outras, teve especial atenção da crítica. Bortolotto não se esquivou e nem se fez de difícil, mas também jamais se iludiu com os holofotes da mídia.

Quem quiser conhecer Mário Bortolotto é só ir até o Alfredo Mesquita e assistir às suas peças, ou ainda se preferir pode ler seus livros. Neles com certeza você vai encontrá-lo, afinal de contas somos o que escrevemos, e Bortolotto é um cara que escreve. (Sandro Eduardo Saraiva)

>Revista Etcetera: Você sempre trabalhou em seus textos com personagens marginalizados, excluídos, autênticos outsiders. Atualmente, parece que o teatro e o cinema estão se voltando para essas figuras à margem da sociedade, estão direcionando o olhar para as mazelas sociais, aliás parece que essa é a ordem do dia na cena cultural brasileira. Como você vê essa inclinação temática meio generalizada?

Mário Bortolotto - Esses personagens excluídos, chamados outsiders, são muito mais interessantes para se fazer boa ficção, tanto no cinema como no teatro ou literatura. São mais interessantes do que personagens comuns que levam uma vida rotineira, cotidiana. Apesar de eu achar que tem autores que escrevem muito bem sobre essas pessoas, como Raymond Carver que escreveu Short Cuts, ele escreve sobre personagens normais de uma maneira muito legal, mas é o talento fudido que ele tem, não é todo mundo que consegue. Agora, eu sempre gostei de escrever sobre esse tipo de personagem marginal porque eu conheço melhor, sempre convivi com figuras mais malucas mesmo, que não têm uma vida convencional, e sempre achei que isso dá uma boa literatura. Mas o fato de algumas pessoas estarem se voltando para isso ultimamente, eu não sei dizer se é desonesto ou não, se estão achando que isso pode remetê-los a um posto de grandes cineastas ou não, eu acho que você tá falando de Cidade de Deus, do Walter Salles, etc. Eu conheço o trabalho mas não conheço a cabeça deles, não sei a intenção, mas espero que seja boa, acho que são bons cineastas e espero que possam fazer um bom trabalho em cima disso.

Etc - Seu texto e suas peças têm forte influência da literatura, sobretudo da literatura beat e de Charles Bukowski, lançou recentemente Bagana na Chuva e tem outros livros editados. Você também tem adaptado textos literários para o teatro, adaptou O Herói Devolvido do Marcelo Mirisola, entre outros. Como você viu essa recente polêmica no meio literário em torno da antologia Geração 90: Os Transgressores?

MB - Eu achei que o Nelson [Nelson de Oliveira, organizador da antologia] marcou touca, que ele não devia ter usado esse nome, “transgressores”. Na minha opinião foi isso que causou a polêmica toda e não precisava. Na verdade ele reuniu alguns escritores que ele escolheu, que achou que representariam bem a geração 90, e acho que isso é uma escolha dele e pronto, só acho que o nome “trangressores” acabou fudendo tudo. Eu nunca tive nada contra esse tipo de coletânea, é sempre assim “os melhores escritores segundo tal pessoa”. É como “Os vinte e cinco melhores poemas de Charles Bukowski”, mas esses vinte e cinco por quê?”, são os melhores segundo o cara que escreveu, né? Sei lá, eu acho isso meio um saco. Eu acho que o Nelson procurou escolher os caras que queria mas marcou touca na hora de colocar o nome “transgresssores”.

Etc - A literatura deles nem é transgressora...

MB – Não, alguns são trangressores, outros não. E acho que nenhum deles estava com essa intenção “Ah! Eu sou transgressor”, acho que foi o Nelson que inventou isso.

Etc - E a polêmica criada parece um pouco “um chute num balde vazio”...

MB – Mas a imprensa gosta disso, né? A imprensa gosta de ficar polemizando em cima disso. Não sei o que aconteceu, se foi alguém que ficou excluído da coletânea, se sentiu prejudicado e procurou atacar o Nelson e os escolhidos dele. E daí, de alguma maneira, isso acabou fudendo todos os escritores que estavam ali envolvidos, inclusive o Mirisola. Eu acho que ele é um transgressor, mas não que ele queira isso pra si, ele não se preocupa com isso.