Etc - ...à vezes o efeito é contrário. Dependendo do crítico, um leitor pode se interessar pelo trabalho justamente porque ele fez uma crítica negativa, não é?

MB - É isso aí, os críticos ganham respeito ou perdem de acordo com suas críticas. No caso da Bárbara Heliodora, ajuda muito quando ela fala mal. As pessoas sabem que ela é terrível mesmo e vão assistir. Agora, por exemplo, a crítica positiva do Sérgio [Sérgio Salvia Coelho da "Ilustrada" da Folha de S.Paulo] em relação a uma peça minha, "Hotel Lancaster", ajudou muito o espetáculo.

Etc - Parece que a crítica positiva dele sobre espetáculo recente da Cia. do Feijão também levou bastante público, mas você não acha que essa é uma atitude meio provinciana do público, ser tão influenciado pela crítica?

MB - Não, eu acho que o crítico começou a ganhar respeito pela crítica dele. Eu conheço o Sérgio e acho que ele é um cara muito honesto no que ele faz. Eu mesmo sou guiado muito por crítica. Sobre cinema, por exemplo, quando eu leio uma crítica de alguém, que eu sei que é uma pessoa antenada com as coisas que eu também sou antenado, eu costumo considerar aquela opinião. Como a gente já comentou, tem crítica que a gente lê e pensa assim "Ah, se ela falou bem eu não vou". Mas eu acho que o público não é bobo nesse sentido. No caso do Sérgio, específico, é que ele vem fazendo críticas muito interessantes, ele fala mal de pessoas que ninguém quer criticar, tem coragem de falar de um cara que está super estabilizado. Ele tem essa manha e isso é muito legal. Ao mesmo tempo fala bem de um grupo que está começando, que ninguém prestou atenção. Ele vai lá assistir e, se gostar, põe quatro estrelas para o grupo. Essa autenticidade eu acho que as pessoas sentem. Mas tem crítico que só vai se for uma grande produção que está estreando, só vai no Falabella, aí é triste, esses caras não merecem o menor respeito.

Etc - Nos seus textos há comentários sarcásticos sobre celebridades do momento....

MB - ...é, pessoas sacralizadas. Odeio gente desse tipo, que leva isso a sério.

Etc - ... relacionamos alguns nomes da cena teatral que são praticamente "instituições", gostaria que você dissesse o que acha dessas pessoas como, pra começar, a Fernanda Montenegro?

MB - A Fernanda Montenegro é uma grande atriz, isso é indiscutível, e eu acho que se acomoda um pouco em cima disso, nessa história de grande dama, grande diva, e aí não faz nada que preste mais. Aí é só estrear, vai o crítico assistir e depois falar "a Fernanda Montenegro é genial". Isso enche um pouco o saco porque eu fico achando que a Fernanda Montenegro tá fazendo sempre a mesma coisa há um tempão. Essa sacralização é que me incomoda, e eu posso colocar o nome do Paulo Autran também e mais um monte de outros atores desse tipo, que eu reconheço como grandes atores, gosto do trabalho deles, mas eu acho que estão acomodados, deitados em berço esplêndido e aí é complicado.

Etc -...e o Gerald Thomas ?

MB - Pois é, o Gerald Thomas é um cara engraçado, eu me divirto muito com ele. Na verdade eu não gosto muito das coisas que ele faz não. Eu acho ele um grande iluminador, a iluminação dele me deixa extasiado, aquela do Beckett, a luz era bonita pra caramba, mas eu acho chato o trabalho dele. Essa coisa de ficar polemizando o tempo todo também acho besteira. Aquela história de ele ser processado por ter mostrado a bunda no final do espetáculo, eu acho uma bobagem, tanto o processo quanto a atitude de mostrar a bunda. Tudo isso é tão bobo. Mas é uma figura engraçada.

Etc - ...o Zé Celso Martinez ?

MB - Puxa, eu acho chato demais ver aquilo. Eu não consigo ficar quatro horas assistindo uma peça naquele lugar que você não consegue encostar direito, não tem encosto nas cadeiras. Eu não gosto do Zé Celso, acho tudo um grande ritual, as pessoas gostam, se divertem, participam, é um teatro interativo, mas eu não gosto. Respeito ele como um grande criador, uma figura importante para o teatro brasileiro, um cara que revolucionou de muitas formas o teatro, é um homem de teatro mesmo e acho que a gente tem que respeitar o cara, mas se eu falasse que gosto estaria sendo hipócrita, eu não gosto, acho chato. Mas é super válido, tem pessoas que gostam, então é super válido.

Etc - ... Antunes Filho ?

MB - É um grande diretor, acho que não tem muito que discutir a respeito disso. Só acho que ele tem que prestar mais atenção na cena toda de teatro, às vezes ele se basta muito em si mesmo e isso é um pouco complicado. Ele fala assim "Ah, eu não assisto nada de ninguém...todos os atores são ruins menos os da minha companhia" e esse tipo de coisa é um pouco chato, ele deveria abrir um pouco o seu leque de referenciais, mas é um grande diretor, isso é inquestionável. Não sei se eu aprovo muito os métodos de direção dele, pelo que eu conheço deles, a maneira como dirige os atores, etc., isso eu não aprovo muito não. Agora o resultado é muito bom, só que eu não concordo com essa história de que o fim justifica os meios.

Etc - Como é seu processo de direção, de montagem das peças ?

MB - É muito simples, cara. É assim: decora o texto, decora as marcas e vamos trabalhar, e se você não entendeu alguma coisa a gente conversa depois na mesa do bar, não fica enchendo meu saco na hora do ensaio. Na hora do ensaio, você tá com o texto decorado, eu te dou as marcas, te dou os tempos, a intenção...aí, se você não entendeu, se quer discutir de onde que veio aquele personagem, se foi de Sartre, de Bukowski, a gente vai conversar tomando uma cerveja, aí a gente discute, eu te passo uns livros se você quiser ler, te indico uns filmes, e se você não tiver interesse nisso também, vai lá e faz, o importante é que você faça bem.