Duas vezes Sofia
Sofia Coppola

1 – Introdução: a tentativa de um conceito

Mesmo com apenas dois filmes no currículo, já é possível afirmar que Sofia Coppola tem seu lugar garantido entre as mais gratas revelações da nova geração de realizadores norte-americanos. Com pouco mais de trinta anos, tornou As Virgens Suicidas (1999) e Encontros e Desencontros (2003) dois exemplos de uma filmografia de admirável vitalidade e vigor dentro dos limites cada vez mais estreitos do cinemão americano. Sofia teve diversas facilidades por ser filha de ninguém menos que Francis Ford Coppola, desde um contato com os sets de filmagens, quando bem nova, até a possibilidade de um atalho para conseguir o financiamento de um primeiro projeto. Mas por outro lado, Sofia enfrentou preconceitos e teve que mostrar seu valor para não viver eternamente “à sombra do talento do pai”. Os preconceitos (e as cobranças) se intensificaram com sua atuação em O Poderoso Chefão III, em que interpretou o papel de Mary, filha de Don Corleone (Al Pacino), substituindo Winona Ryder. As críticas à sua atuação foram praticamente unânimes, assim como ao fato de o papai Coppola ter escalado sua inexpressiva filha para o papel. Há males que vêm para o bem: a partir de então, Sofia deixou em segundo plano suas pretensões de ser atriz e se dedicou a se tornar uma diretora, embora tenha participado em pequenos papéis, como em Star Wars I – A Ameaça Fantasma.

As Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros são dois filmes aparentemente bastante diferentes: o primeiro, com sua ambigüidade mórbida e passado numa cidadezinha dos Estados Unidos durante os anos setenta; o segundo, uma comédia romântica filmada no Japão contemporâneo. Se existe um denominador em comum entre ambos é a habilidade da direção em criar um tom sutil mas bastante particular para o filme. A comédia de Encontros e Desencontros possui uma inevitável melancolia, e As Virgens Suicidas muitas vezes se assemelha com uma comédia de humor negro, sendo improvável rotulá-lo a um gênero específico. É nesta teia de aparências, num autêntico jogo de modulações que torna a essência de cada filme cada vez mais fugidia, que reside o encanto de sua construção. É nesse ponto que surge a ironia, marca de sua filmografia, ou melhor, a auto-ironia, o humor que ri de si mesmo. Mas enquanto em As Virgens Suicidas a ironia surge a partir da própria estrutura do filme, como uma crítica ao conservadorismo da sociedade americana, em Encontros e Desencontros há uma proposta de construção de um cinema mais livre, em que o humor surge como meio de intimidade e de ternura em relação a seus patéticos personagens.


Sofia: um olhar sobre a liberdade

Outro ponto em comum entre os dois filmes de Sofia é o tédio. Os personagens de Sofia estão presos em seus próprios quartos, sejam as adolescentes de As Virgens Suicidas, sejam os dois protagonistas de Encontros e Desencontros. Seu enclausuramento é voluntário no segundo, e involuntário no primeiro filme. Ainda assim, os personagens se entediam consigo mesmos, e este enclausuramento acaba refletindo um olhar sobre a liberdade, que Sofia irá trabalhar de distintas formas em cada filme.

2 – As Virgens Suicidas: ironia e a moral americana

“ – O que está fazendo aqui? Você nem tem idade suficiente para saber como a vida fica amarga.

– Obviamente o doutor nunca foi uma menina de 13 anos .”