
CARLOS CAREQA acaba de lançar Não sou filho de ninguém, o terceiro trabalho do músico e compositor catarinense radicado em São Paulo. A música que dá título ao disco faz alusão a atual MPB, repleta de artistas com uma linhagem famosa na família. É também uma provocação irônica e bem-humorada à mídia e à indústria fonográfica que insistem em rotular e enquadrar o artista em alguma vertente musical, tornando-o um produto fácil, embalado para o consumo de um mercado segmentado.
Sua música mistura rock'n'roll, vanguarda, samba, brega, regional, canção junina, tropicália, etc. num criativo caldeirão de hibridismo, daí a dificuldade em classificá-lo. O cantor e compositor gosta de dizer que o que faz é simplesmente música.
Nesta entrevista Carlos Careqa fala sobre o novo disco, mercado fonográfico, jabá e pirataria, internet, música popular brasileira, e o que é ser um músico independente. (Adriana Aranha / Sandro Eduardo Saraiva)
revista Etcetera: O que é ser um artista independente?
Carlos Careqa: Bom, isso não é uma opção da gente. Todo artista que começa trabalhar com música não pensa em ser independente, eu busquei várias possibilidades, mas todas as portas praticamente estavam fechadas e as gravadoras que deram uma oportunidade foram as gravadoras independentes. Na época o selo que eu lancei o primeiro disco foi a Camerati, que era o selo do Cláudio Lutti. O Arrigo (Barnabé) também estava fazendo um trabalho lá, estava lançando um disco, daí eu lancei o meu disco também. Mas depois eu vi que os selos independentes não têm muita, digamos, organização pra enfrentar o mercado. Eu percebi que fazendo sozinho ou sendo de um selo era quase a mesma coisa, e como tenho uma certa vocação para os trabalhos burocráticos, não que eu goste de fazer, mas acho que eu faço bem isso e faço até melhor que os selos independentes, pra mim mesmo, não para outros artistas, então eu resolvi abrir um selo com o Arrigo pra tocar as nossas coisas. Porque tudo gira em torno do dinheiro, se você tem muito teu selo aparece mais, ou então se você tem um sucesso ou a sorte de cair na graça da mídia...
Etc: Sempre que se fala em Carlos Careqa existe uma associação à música independente. Parece que é uma bandeira que você levanta, as pessoas sempre associam você ao músico independente. Isso te incomoda?
CC: Não, eu não acho que é uma bandeira que eu levanto. Eles associam porque sabem que eu não tenho gravadora e porque eu abri um selo, mais por isso mesmo e porque saiu no jornal também que eu e o Arrigo tínhamos começado esse selo. A princípio eu tinha aberto uma empresa pra dar nota fiscal pros meus trabalhos de publicidade, porque eu sou ator também. Eu fui pra Nova York pra conversar com o David Byrne porque uma música minha saiu numa coletânea lá, daí eu percebi que ele também tinha um escritório pequeno que nem a gente, não é diferente. “Ah! Então é isso que é um selo independente?”, não precisa tanto. Eu acho que as pessoas associam mais por isso mesmo, mas não é uma bandeira. Tem uma diferença em ser independente hoje em dia e ser independente nos anos 70, é muito diferente, porque naquela época era como ser comunista, era como ser um partido de esquerda. Você estava enfrentando alguma coisa e hoje em dia não é bem assim, hoje em dia as grandes gravadoras não querem nem saber da gente, só querem saber a partir do momento que você vendeu mais de dez mil cópias no mercado independente pra eles poderem gerar cem mil cópias lá no mercado deles, a relação é sempre assim: um pra dez. Então nesse sentido, hoje em dia, não é porque eu levanto uma bandeira ou porque eu sou revolucionário, acho que isso é um papo meio démodé, não tem mais a ver. Acho que é uma questão assim: Pô, não tem?, vamos à luta, vamos trabalhar, entendeu? Como vocês também, não têm um veículo oficial, não têm uma editora que financia vocês... Pô, vamos fazer a nossa jogada pra depois um dia rolar um negócio melhor ou continuar fazendo o que a gente gosta.