Capa da revista Fon Fon (nº 28, 1909) trazendo foto
do Municipal pouco antes de sua inauguração
1. A remodelação do Rio de Janeiro

Nos primeiros anos do século XX, a cidade do Rio de Janeiro sofreu profundas modificações urbanas. Em especial durante o governo do prefeito Passos, foram feitas obras que reformularam completamente o centro carioca, demolindo as antigas ruelas e casarões e construindo largas avenidas e edifícios imponentes, em especial a Avenida Central, que se tornaria o marco desse ímpeto reformador.

O Rio, então capital federal, ocupava desde o final do século XIX papel privilegiado na economia cafeeira. Principal porto para exportação dos produtos agrícolas e centro político nacional, a cidade acumulou recursos financeiros que se expandiram para o comércio, as finanças e as nascentes indústrias.

No início do século XX, com o deslocamento da cafeicultura para o oeste paulista e a utilização cada vez mais freqüente do porto de Santos, o porto do Rio de Janeiro modificou seu perfil: tornou-se principalmente importador. Seu movimento, apesar da diminuição das exportações, cresceu um terço entre 1888 e 1906. Esta mudança significava a transformação da cidade em nosso maior centro cosmopolita, em contato com a produção e o comércio europeus e americanos, que eram difundidos pelo restante do país, e do carioca em um “consumidor”, interessado em adquirir a “novidade” e a “última moda”.

A cidade imperial mostrou-se inadequada para os novos tempos “modernos” republicanos. Sua estrutura urbana apareceu então anacrônica aos olhos da elite, incapaz de satisfazer os novos anseios sociais e econômicos da nação. O cais, antigo, dificultava o tráfego de grandes navios; as ruelas curvas e em declive dificultavam a conexão do porto com a malha ferroviária e os armazéns comerciais; as áreas pantanosas facilitavam a proliferação de doenças tropicais.

“E o que era mais terrível: o medo das doenças, somado às suspeitas para com uma comunidade de mestiços em constante turbulência política, intimidavam os europeus, que se mostravam então parcimoniosos e precavidos com seus capitais, braços e técnicas no momento em que era mais ávida a expectativa por eles.”[1]

A implantação da República trouxera crises políticas e sociais que exauriram o Tesouro Nacional e dificultaram a entrada de capital estrangeiro e de imigrantes. Havia a necessidade premente de se criar uma nova imagem para o Rio de Janeiro, que resplandecesse no exterior e convencesse os europeus de que nosso país era, também, um país seguro e civilizado.