Eu te amo Lucimar

Atualmente eu até aceito e respeito este título, mas lembro que na época eu tinha um pouco de vergonha. Foi lançado em 1994 pela editora Vortex (Gilberto Firmino).

Existem alguns elementos que justificam a homenagem e que, se não me engano, o Lourenço não revelou em nenhuma entrevista.

Os personagens são gêmeos porque pertenço a esse signo, no início da história eles têm 11 anos porque quando comecei a namorar o Lourenço, eu tinha 22. Na construção da personagem Maria ele me usou como modelo e em sua lápide aparece S.R que completaria o nome e sobrenome da minha mãe. Alguns desenhos foram feitos por observação no bairro em que eu morava com a minha mãe (Itaim Paulista) e aonde viríamos a morar nos dois primeiros anos após casados.

A professora de Desenho Geométrico é inspirada no meu início de carreira que apesar de preferir História da Arte eu era obrigada a ministrar pelos programas das escolas a disciplina. A poesia e a beleza que cerca a professora fazem parte apenas do universo criativo do autor.

Acho que as referências acabam por aqui.

Tal história apresenta um fio condutor narrativo que, particularmente, me agrada muito.

A começar pelo título que é uma armadilha. Ainda não encontrei ninguém que não o pronuncie com um sorriso e um suspiro apaixonado. Porém o encantamento se acaba juntamente com o término da leitura do livro.

De uma certa forma, pode-se dizer que, após o desespero da leitura de Desgraçados, Lourenço Mutarelli conseguiu reencontrar o equilíbrio e o foco narrativo que havia desenvolvido em Transubstanciação. *

É um exemplo da forma como o quadrinho autoral pode ser bem utilizado como fonte de leitura, para servir ao propósito da comunicação.

O autor muda o estilo pictórico de suas páginas, faz uso da aguada, técnica que consiste em adicionar água ao nanquim visando obter mais tonalidades, explorando melhor o meio tom que permite mais volume e realismo para o desenho dos cenários e das figuras humanas.

O contorno ainda é trêmulo, mas a forma de preenchê-lo causou belíssimos efeitos artísticos. A diagramação das páginas é muito mais simples que nas duas histórias anteriores, o que torna a leitura ainda mais agradável, sem a necessidade de numerar quadros, recurso usado pelo desenhista em uma história de Desgraçados.

A experiência em trabalhar produzindo somente quadrinhos ajudou-o a exercer um grande domínio em seus trabalhos, tanto cênico quanto narrativo. Neste álbum, o quadrinhista lapidou a “verborragia” e produziu um texto minuciosamente poético.