Neste especial a Etcetera reuniu oito atrizes do teatro alternativo de São Paulo para discutir o ofício da atriz e seu papel na sociedade. Fernanda D'Umbra, Georgette Fadel, Isabel Teixeira, Mônica Raphael, Nádia De Lion, Renata Zhaneta, Silvana Abreu e Soraya Aguillera (clique no nome das atrizes para ver ficha biográfica) responderam a uma entrevista elaborada pela revista juntamente com convidados como o pesquisador Adriano de Assis, os dramaturgos e diretores Márcio Boaro, Mário Bortolotto e Reinaldo Maia.

Quem participou da entrevista:

Adriano de Assis
Mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo e Pesquisador de Teatro. Colaborador da revista Etcetera.

Márcio Boaro
Ator, diretor e dramaturgo da Cia. Ocamorana de Pesquisas Teatrais. Escreveu entre outras peças A Guerra da Libertação Divina .

Mário Bortolotto
Ator, diretor, escritor e dramaturgo. Fundador do grupo Cemitério de Automóveis. Escreveu Medusa de Rayban , Éramos Todos Thunderbird's , Hotel Lancaster , etc.. Também publicou livros como Bagana na Chuva , Gutenberg Blues , entre outros.

Reinaldo Maia
Dramaturgo e diretor do grupo Folias D'Arte. Entre suas peças destaca-se Verás Que Tudo é Mentira , Folias Felinianas , Flávio Império - uma Celebração da Vida , etc.. Também publicou livros como Brecht visto da rua . É um dos organizadores do movimento Arte Contra a Barbárie.

A elaboração e concepção do especial são da revista Etcetera que também participou da entrevista através de questões levantadas pela equipe editorial.


Fernanda D'Umbra em
Nossa Vida Não Vale um Chevrolet de Mário Bortolotto
revista Etcetera: Embora seja uma das expressões artísticas das mais antigas as mulheres só vieram atuar no teatro no século XVIII. No Brasil até a metade do século XX a profissão era discriminada e associada ao meretrício. Gostaríamos de saber como é ser atriz hoje e o que ainda pode melhorar.

Fernanda D'Umbra: Ser atriz é tão difícil como sempre foi. Ninguém dá a mínima para as atrizes. Exceto para as que se sujeitam a escândalos e a exposição de sua vida privada, mas isso é putaria e não vem ao caso. Essa é a primeira vez que vejo uma entrevista só com atrizes para saber o que elas pensam. Fiquei surpresa com a iniciativa. Ser atriz hoje, ainda é ser confundida. Não com uma puta, mas com uma idiota. Fazer o quê? Eu deixei de me preocupar com o que pensam a respeito da profissão. Conheço atrizes legais e procuro me relacionar com elas. Mas acho que o que ainda pode e deveria melhorar são as próprias atrizes. Eu vivo implorando para minhas amigas: leiam mais, se informem sobre outras coisas, parem de achar que a única saída para a vida de vocês são essas merdas desses testes que vocês fazem o dia inteiro, parem de querer fazer a Zilu no filme-biografia do Zezé de Camargo e Luciano, não aceitem convites cretinos para peças cretinas, ao menos cobrem mais caro pelos micos imensos que vocês pagam.

Tem muita atriz bacana que se dá ao respeito, mas a maioria não.

E aí fica difícil defender. Na verdade ando desistindo. Sigo fazendo o meu e de vez em quando faço esses discursos mamãe radical, que não adiantam nada pra falar a verdade. É fácil reclamar da sociedade como se não se fizesse parte dela. O mercado , o teatro, o mundo, essas coisas todas também são vocês, poxa. O que falta para melhorar é mais coragem e menos peruagem.


As Bastianas com Georgette Fadel (última à direita) e a
Cia. São Jorge de Teatro

Georgette Fadel: Ser atriz hoje é muitas coisas. A palavra atriz hoje quer dizer muitas coisas diferentes. Para mim, a certeza do crescimento, o único crescimento que me interessa, em direção à consciência dos fenômenos que me formam e me cercam. E não acredito que atualmente seja mais difícil, mesmo em termos sociais e financeiros, ser atriz do que ator.

Isabel Teixeira: Se até a década de 50 a profissão era marginalizada, hoje em dia ser "atriz" virou aspiração nacional. Qualquer uma pode, quase da noite para o dia, "virar" atriz. Eu acho até bonito. Parece que a palavra "atriz", de tanto ser confundida com a palavra "puta", engravidou dela mesma e explodiu numa profusão de significados e desdobramentos. E, na minha opinião, tudo é válido. Existe a atriz de comercial; a de teatro e cinema; a atriz, modelo e manequim; a atriz de teatro infantil; contadoras de história, atriz e dona de casa, atriz de botequim, atriz estrela, atriz sem estrela. e por aí vai até o infinito.