Silvana Abreu em Micro-revolução
de um Ser Gritante

Fernanda D'Umbra: Quero dinheiro e mais nada. Dinheiro fazendo o que gosto para não ter que fazer o que não gosto. Como faço basicamente o que quero seria leviano se dissesse que quero mudar o mundo ou a sociedade ou um espectador que seja. Acho que ser uma pessoa que só faz o que quer é minha parte nessa revolução. Fujo como o diabo da cruz do mercado e fujo também de um tipo específico de trabalho. Se eu acho que eu posso e quero fazer alguma coisa , eu faço. Pouco me importa o que pensem. Engana-se a atriz que não acredita que pode deixar um legado só porque o teatro é efêmero. As pessoas que me viram em cena vão se lembrar de mim como uma atriz que só fez o que quis e não ficou chorando.

Nádia de Lion: Trabalhar mais, textos que li e nem imaginava que poderia fazer, acho que gostaria de arriscar mais, com pessoas bacanas, já viu quanta gente boa temos?, que tenha sempre um desafio naquele trabalho, por exemplo, viajar mais com um mesmo espetáculo. Conhecer novos diretores. Penso em ganhar dinheiro para ter uma vida digna, fiz 40 anos agora. E usando frases da Sarah Kane te digo : "Eu não quero ficar velha e fria e não ter dinheiro nem para tingir o cabelo. Quando eu tiver 60 anos não quero acabar num quartinho com medo de acender a luz e não poder pagar a conta".

Quanto ao estilo próprio, acho que cada um tem o seu e busca melhorar, mas não sei se é bom ser identificada por um mesmo tipo de trabalho a vida toda. Não sei. Gosto de mudanças.

Georgette Fadel: Espero que minha carreira seja expressão cristalina da minha caminhada como ser humano, cidadã. Expressão das minhas fraquezas, das minhas perguntas, das minhas vitórias e superações. Nem mais, nem menos.

Márcio Boaro: Uma atriz que opta por trabalho coletivo de pesquisa e compromisso social, tem um olhar diferenciado sobre o seu oficio. Mas como artista tem outras inquietações e necessidades a serem respondidas.
Como conciliar estas necessidades diferentes?

Mônica Raphael: Necessidades contraditórias geram conflitos e nos obriga a reflexão mais aprofundada de quem estamos nos tornando, em que acreditamos, o que queremos e o que podemos realizar no momento.

 


Nádia De Lion em cena de Ânsia de Sarah Kane, direção
de Rubens Rusche

Silvana Abreu: Ou a gente se joga completamente na direção das nossas inquietações e necessidades e isso nos leva naturalmente a um tipo de trabalho específico, ou a gente se engana e acaba aceitando caminhos em que não estamos inteiros e plenos, talvez por não acreditar que seja possível. Há que se ter um compromisso total.

Fernanda D'Umbra: Não são diferentes para mim. Não sou das mais ligadas em trabalho coletivo de pesquisa porque minha pesquisa independe do coletivo. Eu até desconfio um pouco desse mito do trabalho de grupo. E olha que trabalho em um, mas não me alimento só dele senão enlouqueceria ou me acomodaria deixando meu pensamento ser conduzido pelos meus "companheiros de trabalho". Tenho medo dessas coisas que te deixam confortavelmente protegida por um coletivo, um diretor, um guru, um método. No Cemitério de Automóveis o Mário Bortolotto é o diretor e autor, funções de liderança, é claro, mas daqui de onde estou, ou seja de dentro da minha cabeça, eu me garanto para não permitir que ela deixe de ser o meu juiz.

Se minhas inquietações (que já disse, não têm nada a ver com fama e glamour) tiverem que ser abortadas, eu saio do grupo na boa. Não tenho causa alguma que não seja a minha liberdade. E acho que dá para ser livre trabalhando com quem você gosta.

Se um trabalho te afasta de suas inquietações se afaste dele. Esse negócio de "encontrei minha turma" é perigoso. Daqui a pouco a mina está botando a culpa de não fazer o que quer em seu compromisso artístico/social e aí vira uma atriz chata e frustrada cheia de desculpas politizadas.

Ninguém leva duas vidas. Se você não está plena em um lugar, está ocupando o lugar de alguém. Vai andar, no melhor sentido da expressão.

Renata Zhaneta: Bom,conciliar significa trabalhar três períodos por dia para conseguir sobreviver e continuar estudando, ensaiando, tocando o grupo, fazendo projetos, dando aulas... Nada muito diferente do que a grande maioria dos brasileiros faz . Mas "vamo que vamo" porque muita coisa tem avançado e eu gosto é de me estimular com as vitórias.

Hoje desenvolvo um trabalho junto à Cia Estável de Teatro que ocupa o teatro Flávio Império na Zona Leste que me mostrou, na prática, a imensa beleza e a força que tem a arte na transformação social.

Então, acho que hoje é fazer, fazer, fazer ... e teorizar menos!