

Isabel Teixeira no espetáculo solo Depois do Expediente
Na minha opinião, a palavra "atriz" é camaleônica, vai se adequando ao uso pessoal e intransferível que fazemos dela. Quando optei por usar esta palavra como epíteto de mim, fui forjando uma malha de significados próprios, que se adequam ao tipo de teatro que eu quero fazer agora. Para mim o ofício não se limita ao papel decorado e repetido. Faço parte de uma Companhia (a Cia. Livre de Teatro) onde os atores são criadores em potencial. Atores que também são diretores, escritores, tradutores, iluminadores, cenógrafos. O ator com consciência plena da máquina teatral, que domina minimamente as partes que constituem o todo do espetáculo, é o tipo que me agrada e com o qual eu me reconheço mais. Na criação da personagem, o iluminador, por exemplo, tem seu papel fundamental. Eu, como atriz, sei de onde vem a luz, qual a intensidade, qual é o tipo do refletor, a angulação, como o facho de luz compõe o todo da cena, enfim. Há um diálogo direto com o iluminador, podemos criar conjuntamente porque eu tenho conhecimento do ofício dele e ele do meu. Acho que hoje em dia os atores têm que dominar a caixa do teatro em todos os seus desdobramentos.
Mônica Raphael: A questão histórica é relevante, mas hoje, os problemas que enfrentamos como atrizes são os mesmos enfrentados pelos atores. A principal dificuldade é levar o nosso trabalho a um público maior e conseguir com isso viver de forma digna.
Nádia de Lion: É ser operária, ser trabalhadora como todo mundo que luta pelo que acredita, sem as vantagens que por exemplo uma pessoa contratada por empresa tem como: registro, seguro-saúde, transporte, etc. Não existe a discriminação quanto ao meretrício, mas existe sempre um estranhamento em preencher uma ficha - profissão: atriz, a pergunta é: - Você já fez novela?
Renata Zhaneta: Pra melhorar tem tudo. O Brasil precisa entender que arte é um bem comum como saúde, educação, moradia, transporte. Sem sonho o homem não vive, vegeta. E sem arte como se consegue alimentar o sonho? Parto deste ponto de vista pra pensar minha relação com o ofício. Minha ambição é interferir para que o mundo se torne um pouco mais brilhante para todos.

Claus de Paula e Mônica
Raphael em A Máquina de Somar de Elmer Rice
Silvana Abreu: Ser atriz (ou ator) hoje é encarar a verdadeira e total insegurança da vida, escondida atrás de falsos confortos, de falsos sucessos, e conseguir fazer disso mesmo combustível para a expressão artística. É jogar dados com o impossível e revelar e propor novos trajetos, muito além da simples busca de sobrevivência.
O que ainda pode melhorar sou eu, meus recursos, meu pensamento, minha ação no mundo.
Soraya Aguillera: Eu acho que o preconceito ainda existe numa parcela de público que não é o meu.
As cobranças são muitas, inclusive da família que quer que você faça sucesso ou tenha uma vida financeira mais segura.
Acho que ser atriz hoje é não ceder a pressões é esforçar-se por ser fiel a si mesma.
Tudo pode melhorar. O intercâmbio entre nós ajuda muito.
revista Etcetera: Até que ponto é importante uma escola de arte dramática ou uma faculdade de artes cênicas para a formação da atriz?
Nádia de Lion: Até o ponto em que ajude no crescimento artístico e amadurecimento.
Muitas pessoas começam em grupos de teatro amadores ou profissionais e aprendem de tudo ali, naturalmente já fazem uma transição, se formam na prática e é esta transição que se espera das escolas de teatro. Mas nem sempre isto acontece, não é?
Por outro lado, estudar é um privilégio: o conteúdo, carga horária, e profissionais envolvidos nas Escolas Dramáticas e Faculdades de Artes Cênicas são maravilhosos, são marcantes na nossa vida.
Isabel Teixeira: O grande perigo de fazer uma faculdade de artes cênicas é achar que se está pronto. Um ator nunca está pronto. Se está pronto, está acabado. A formação de um ator é uma constante em eterna mutação (como a vida, como tudo). Cada um tem a sua escola. Para mim a Escola (fiz EAD) foi bem importante como começo. Até hoje eu não fui buscar meu diploma. Acho meio incoerente. A escola foi o marco zero. Todos os dias eu renovo a minha opção. E amanhã é outro dia. Novo.