

Soraya Aguillera em Hypocrites, texto e direção
de Edson D'Santana
Nádia de Lion: Ah... não sei. Eu acredito que o trabalho da atriz e do ator é se transformar ao máximo para tornar o trabalho verossímil, e ter humanidade, sem isto não dá. Agora se isto é ser camaleônica, julgue você.
Em geral eu não gosto muito de palavras que se tornam um rótulo.
Renata Zhaneta: Nem sei o que significa isso. Acredito em processo, investigação e construção do trabalho, seja qual for.
Georgette Fadel: Creio que uma das brincadeiras mais divertidas para uma atriz é o vestir máscaras, mas prefiro sempre acreditar em atrizes humanas que podem e sabem escolher em que, porque e como se transformar.
Isabel Teixeira: Eu acredito em atrizes. E nesta fauna, há várias espécies de camaleoas. Camaleoas que a cada ano aparecem de um jeito. Mudam tudo. Você olha e não reconhece. Camaleoas que aparentemente são sempre iguais e no entanto dão conta de uma galeria imensa de personagens totalmente díspares uns dos outros. Me veio agora na cabeça a imagem da Lilian Lemertz. Era sempre igual. Cabelo liso, na maioria das vezes bem puxado para trás. Lilian Lemertz era camaleônica na emoção, sempre renovada. Há também as camaleoas do tempo. O tempo muda a gente. Eu sou dessas. Sou adepta do cotidiano. Gosto de ver a vida passando na rua, no ônibus, na esquina, no quarto alugado na frente da minha janela, na moça, na mão, no fósforo acendendo o cigarro, na lata rolando escada abaixo. A mudança se dá pelo olho, é no olho. O olho como porta aberta. Aí a pele pode mudar.
Fernanda D'Umbra: Se elas me convencerem, sim. Mas penso que muita atriz paga mico por achar que pode fazer qualquer papel. Agora, não vamos negar que algumas atrizes são mais versáteis do que outras e podem se arriscar sem quebrar tanto a cara. Acho que existem sim umas minas com muitas possibilidades diferentes. Esse termo "camaleônicas" é que é um pouco pesado.
revista Etcetera: Existe mesmo uma "grande dama do teatro brasileiro"?

Silvana Abreu no espetáculo-solo Micro-revolução de um Ser Gritante
Renata Zhaneta: Existem atrizes que nos ensinam muito pela técnica, pela postura na profissão e na vida, pela generosidade da alma: Berta Zemal. Valderez de Barros, Denise Weimberg, Cleide Yáconis, Claudia Schapira, pra citar algumas feras por quem tenho eterna admiração.
Mônica Raphael: Seria uma grande redução achar que existe uma única dama. O que temos são atrizes e atores que nos inspiram pelo seu trabalho contínuo e dedicado, contribuindo para história do nosso teatro. São as grandes damas e os grandes cavalheiros do teatro brasileiro.
Nádia de Lion: Não uma, mas várias. Não só a grande dama, mas as grandes damas do teatro brasileiro, eu sempre tento conferir, vou atrás dos trabalhos delas e poucas vezes me decepcionei. Temos que levar em conta que a mídia pode ser exagerada às vezes em relação a algum trabalho. Ou que a minha eleita como "grande dama" não seja a mesma eleita pelo público ou pelos críticos, pela mídia.
Isabel Teixeira: Sim. Existem várias grandes damas. A perseverança e o tempo constroem a grande dama. A gente não nasce com esse título. Ele é conquistado a duras penas, depois de anos de trabalho. E, para mim, a grande dama é aquela que sabe pisar no tapete vermelho calçando um salto sete e um tempinho depois é vista com uma sacolinha correndo atrás do ônibus pra voltar pra casa. Com a mesma dignidade. E beleza.
Fernanda D'Umbra: Não.
Soraya Aguillera: Fernanda Montenegro é a Grande Dama do Teatro Brasileiro, isso é um fato. Ela é a eleita da mídia, do público e da classe teatral. Inclusive por mim, que tenho o hábito de eleger várias damas do teatro, todos os dias. Hoje escolhi: Fernanda D'Umbra, Georgette Fadel, Isabel Teixeira, Mônica Raphael, Nádia de Lion, Renata Zhaneta, Silvana Abreu...
Georgette Fadel: Algo grande pressupõe algo pequeno. Não vejo assim. Vejo que existem atrizes generosas com as quais aprendemos sobre engajamento e beleza.
Silvana Abreu: Esse tipo de rótulo serve para facilitar a vida da imprensa ou para quem precisa de ícones para se sentir mais confortável e seguro. Tanto faz se há ou não. O teatro é essencialmente imaterial e efêmero, não há como fixar nada. Há grandes atrizes que fazem teatro há muito tempo, que a gente admira e que podem ser um farol no nevoeiro. Há a Denise Stoklos, que eu não chamaria de "grande dama", mas que é o maior vulcão em atividade no Brasil que eu conheço. E há tanto teatro que a gente não conhece. Com certeza, deve haver agora uma atriz poderosa no Nordeste que eu nunca vi.