

Nádia De Lion contracena com Fábio Herford em Tio Vânia ,
direção de Celso Frateschi
Reinaldo Maia: Você foi convidada como atriz do teatro alternativo,
vale perguntar: alternativo a quê e por quê?
Georgette Fadel: Alternativo a um tipo de pensamento que embrutece o ser humano e lhe arranca o que de mais precioso ele tem: o livre-arbítrio, a capacidade de refletir e elaborar o próprio destino. Alternativo a idéias de competição e comparação.
Porque acredito na urgência da percepção da vida (e portanto do teatro) como um fenômeno essencialmente coletivo e amoroso.
Fernanda D'Umbra: Já usei muito esse termo e sei que ele traz em si a melhor das boas intenções, mas não sei mais se faço teatro alternativo. Faço teatro. Se ele é alternativo a alguma coisa acho que é ao medo de se arriscar, alternativo a falta de grana em casa, alternativo ao monte de desculpas que as pessoas arrumam pra ficar em casa reclamando, alternativo às pressões de sucesso e fama que engolem um monte de gente enquanto eu me divirto com meus amigos.
Alternativo porque não há desculpa para não se fazer teatro.
Não faço um teatro alternativo ao "teatrão". Faço o que eu quero, é só.
Não quero definir o que faço por comparação.
Isabel Teixeira: Alternativo porque não tem outra alternativa. As coisas foram acontecendo. Para fazer o teatro que quero, eu tenho que ser "geratriz": gerar as condições necessárias para estar atuante. É alternativo por isso. Não está nos moldes mercadológicos. Tem que ser constantemente inventado e reinventado para poder existir. Para falar a verdade, eu nem sabia que eu era uma atriz do teatro alternativo. Não tenho nenhum suporte político que estruture minha maneira de ser dentro do teatro. O coração sempre vai antes. É o coração que pede. E a força de vontade realiza.

Milhem Cortaz e Isabel Teixeira em cena
de Um Bonde Chamado Desejo de
Tennessee Williams
Nádia de Lion: Alternativo primeiro no que é dito e/ou como é dito.
Alternativo na maneira de organização e produção do grupo.
Alternativo porque é necessário, as pessoas se conhecem, querem trabalhar, estudam e vão atrás das possibilidades com características artísticas que fogem das leis do mercado, mas elas não querem desistir dos sonhos, e tornam o trabalho realidade mesmo nadando contra a maré.
Soraya Aguillera: Existem espetáculos de estética e conteúdo novelesco, geralmente com artistas globais, feitos para o divertimento da classe média. De outro lado o que muitos chamam de grupos alternativos, alguns pretensos alternativos que erram no princípio e acabam invariavelmente mergulhando no hermetismo. Consistentes em seus princípios, preocupados em dialogar com o público sobre temas relevantes da atualidade, alguns grupos conseguem proporcionar ao público o reconhecimento de si mesmo, a reflexão e o prazer estético.
Mônica Raphael: Alternativo porque não endossamos os modelos culturais vigentes e rentáveis com o nosso trabalho. Temos claro que a abrangência do nosso trabalho é restrita, mas é o que acreditamos.
Silvana Abreu: Pode ser também mais um rótulo para facilitar generalizações. Mas pode também indicar caminhos e escolhas que não se enquadram em modelos prontos, quaisquer modelos, tantos estéticos quanto de produção. Acho que o momento é importante para criamos meios realmente alternativos e desistirmos de nos fazer "incluídos". Acho mais saudável se assumir "excluído" e, na exclusão, criar maneiras novas e mais sinceras de reunir artistas em grupo, produzir e oferecer seu trabalho, divulgar, trazer gente, ser remunerado por isso e continuar trabalhando.
Renata Zhaneta: Alternativo a tudo o que possa nos aprisionar às regras de "mercado". Alternativo porque pretendemos buscar possibilidades estéticas ainda não exploradas. E que os Deuses nos ajudem! Agora, acho que vivemos um bom momento para discutir entre nós mesmos este conceito: alternativo! Vamos marcar uns papos no Praticável do Folias?