

Renato Borghi e Renata Zhaneta em O Rei do Brasil
de Luiz Alberto de Abreu
Adriano de Assis: O teatro é um meio de produção tecnicamente limitado se comparado, por exemplo, aos meios de comunicação de massa, em especial ao cinema e à televisão. Enquanto estes operaram com públicos genéricos e abstratos, que tendem ao infinito, o teatro apenas atinge públicos pequenos e restritos a uma representação numa única sala de espetáculos. Em virtude disso, não pode concorrer, num mercado cultural, em igualdade de condições com produções artísticas televisivas ou cinematográficas, estando condenado a especializar-se numa fatia de público (estudantes, minorias, elites...) e a sobreviver em condições econômicas precárias, contando com patrocinadores esporádicos apenas para a exibição de peças (raramente para estudo e preparação) e tendo de recorrer ao amparo estatal. Você acha possível a existência contínua e independente de companhias teatrais profissionais no capitalismo?
Isabel Teixeira: A produção contínua de companhias teatrais profissionais sobrevive apesar de perguntas como essa. A base do raciocínio é equivocada e é exatamente esta base que precisa ser modificada. Não podemos simplesmente equalizar o teatro com as demais produções culturais e tecer comparações absurdas que tendem a desqualificar e denegrir a produção teatral atual. Não há igualdade de condições entre o teatro, o cinema e a televisão porque são meios diferentes de produção cultural. São linguagens diferentes e cada uma tem o seu papel. Dizer que o teatro está condenado a especializar-se numa fatia de público é ditar uma sentença negativa por princípio e desqualificar esta "fatia" de pessoas. A qualidade teatral não está diretamente ligada com a quantidade de pessoas que tem acesso aos espetáculos. O mercado cultural oficial (aquele favorecido pelas leis de isenção fiscal) tende a abastecer somente uma pequena fatia da produção teatral - em geral a que vai vender mais a marca de um determinado produto. Apesar disso, os grupos de teatro estão aí, produzindo bom teatro. Cada companhia tem uma cara, um estilo. Hoje em dia vivemos a retomada do teatro de grupo. E o público lota as pequenas salas de espetáculo. A minoria vai se tornando uma pequena maioria conforme o tempo passa. O teatro atinge o público em ondas. Eu acho isso muito legal. Não faço teatro para as massas. Quando eu entro em cena quero falar para cada um que está ali. O que eu acho que tem que acontecer (e está acontecendo sim) é uma mobilização desses grupos atuantes para que se criem condições que abarquem nossas necessidades através de leis específicas e fundos de cultura. Não é o fim do mundo recorrer ao amparo estatal, muito pelo contrário. Só que o estado tem que dar conta do recado.

Georgette Fadel em montagem da Cia. São Jorge
de Variedades para As Bastianas de Gero Camilo
Georgette Fadel: Atualmente, como é o caso da Cia. São Jorge de Variedades da qual faço parte, companhias estáveis só conseguem sobreviver com dignidade por conta de programas e incentivos públicos. Não há e nunca haverá interesse real por parte de empresas privadas e da mídia nesse tipo de trabalho que pressupõe humanidade. O capitalismo está calcado em valores tão diferentes dos que nos movem nessa empreitada que vejo a conciliação como impossível.
Eu mesma não quero me conciliar com nenhum tipo de mercado, não sou nem produto nem mercadoria. E tenho certeza que a arte que se constrói sobre valores tão obviamente redutores e perversos como os do capitalismo perde inevitavelmente algo de essencial.
Soraya Aguillera: Alguns grupos sobrevivem a duras penas, muitas vezes em detrimento a qualidade artística.
O problema do Brasil é cultural. É preciso implantar uma política que possa contemplar a enorme diversidade cultural do país, e promover a inclusão dos que se vêem privados do acesso à cultura.
Em São Paulo, algumas conquistas da classe teatral, como por exemplo, o Programa de Fomento ao Teatro, que em sua 4 ª edição, tem como objetivo apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral, visando o desenvolvimento do teatro e o melhor acesso da população ao mesmo, apesar de merecer ainda muitos ajustes, o projeto prova que a classe teatral vem reconquistando sua dignidade.
Nádia de Lion: Acho possível, mas não sei quanto tempo é este contínuo e independente. Quando você se dedica a um trabalho artístico que te abastece, mas as contas não são pagas é muito frustrante, além de impraticável. As pessoas acabam tendo outras atividades para se manterem, lógico. E a estabilidade e aprofundamento do grupo podem dançar, porque acaba havendo uma rotatividade grande de pessoas e às vezes pessoas que são alicerce do trabalho.