

Um Deus de Plástico de Luiz Eduardo Frin com Silvana Abreu e
a Cia. de Investigação
Fernanda D'Umbra: Elas sempre existiram. Por que achar que não é possível? Uma existência independente precisa de um grande poder de resistência. Física, inclusive.
É lógico que o teatro nunca terá o público da televisão ou do cinema, mas um bistrô também não tem o público do Mc Donald´s e nem por isso deixa de existir no capitalismo. O dinheiro precisa deixar de ser o único parâmetro na vida das pessoas senão estaremos todos rendidos.
O que eu acho é que as atrizes e todo mundo que faz teatro tem que parar de comparar o teatro à TV e encarar que abriu um bistrô, fazer uma boa comida e ir até a mesa conversar com os clientes. Enfim: fazer um teatro bacana, cobrar um preço justo, conversar com a platéia da forma mais informal possível, formar seu público noite após noite e se preparar para uma vida artesanal.
E aí, vai encarar?
Silvana Abreu: O teatro não tem necessidade de ser tecnicamente rico, não tem necessidade de concorrer ou se igualar com a TV ou com o cinema, não está condenado a nada. O teatro tem vida própria e os próprios meios de produção. Tem sido assim há séculos. A quantidade de pessoas atingidas não é um ponto de fragilidade. A fragilidade está no embotamento que o capitalismo necessita impor à sensibilidade. Isso abafa e adormece a nossa a necessidade natural de teatro. Cabe aos artistas serem fortes e contundentes o suficiente para quebrar essa casca de insensibilidade e mobilizar a vida novamente nos corpos na platéia.
Na realidade, há várias companhias teatrais funcionando há muitos anos, que não estão fazendo o jogo do mercado, não estão na mídia, e fazem teatro de ótima qualidade. É claro que elas passam por dificuldades, mas também estão resistindo e criando seus meios de produção próprios, apesar de todos os muros sendo levantados em todas as direções.
Renata Zhaneta: Bom, no Folias a gente tem tentado manter a investigação artística continuada. Não é biscoito não! Mata-se um leão por hora, mas essa é nossa escolha: persistir, resistir e não desistir. E quem disse que o capitalismo é eterno?!

Eucir de Souza, Fernanda D'Umbra e Mário Bortolotto em cena de
Diário das Crianças do Velho Quarteirão
Mônica Raphael: Acho possível, porque existem estas Companhias, apesar da famosa frase, um clichê: "O teatro está morrendo". Para um moribundo, eu diria que ele resiste corajosamente, apesar dos maus presságios.
O teatro é a manifestação artística que acontece em um momento único; o encontro do ator com o público, isto vai persistir enquanto o homem manter sua humanidade e precisar deste encontro. Para continuarmos o nosso trabalho, a união da classe artística é fundamental para garantirmos a dignidade a que temos direito. Um belo exemplo desta união , é a Lei de fomento ao teatro para a cidade de São Paulo. Outras possibilidades estão surgindo, já que estamos aprendendo neste processo coletivo a consolidarmos os nossos direitos de forma mais eficiente e com resultados mais promissores.
revista Etcetera: Vivemos em um país onde existe o monopólio de uma emissora de televisão. E a televisão tem sido a mídia com maior alcance e popularidade. Tendo isso em vista as novelas da rede Globo são para a grande maioria da população a única referência que se tem do trabalho de atriz. A mídia tem contribuído muito para uma visão deturpada do ofício, associando invariavelmente a questões como fama, beleza, virtuosismo, glamour,etc.. Isso de alguma forma atrapalha o seu trabalho? Queríamos saber se hoje é possível desenvolver um trabalho sério e ético dentro da televisão e se você aceitaria um eventual convite para fazer parte de um elenco de telenovela da Globo.
Silvana Abreu: A mídia não atrapalha o teatro, de maneira alguma, são coisas bastante distintas. O teatro funciona no encontro de pessoas ao vivo. O público acaba sabendo onde tem bom teatro, de uma forma ou de outra. É um trabalho quase que subterrâneo. Aquele que quer ver a celebridade tem essa possibilidade. Mas isso não interfere no trabalho de quem faz teatro, porque atua numa freqüência completamente outra. E o público acaba sendo bem diverso.
Acredito que é possível fazer um trabalho sério e ético na TV. Temos a TV Cultura e a STV, por exemplo. Mas também acho séria e ética a ação de desligar a TV e enfrentar o mundo sem interface. Eu não tenho interesse em participar de trabalho com TV. O tipo de visibilidade que isso traz não me anima nem um pouco.