Soraya Aguillera em Pranto da Maria Parda , texto de
Gil Vicente adaptado por Ivan Cabral e dirigido
por Rodrigo Garcia Vasquez

Fernanda D'Umbra: Estou me lichando para os padrões de beleza e não sinto falta de dar autógrafos na padaria. Portanto fama e glamour não me fazem gastar um neurônio. Minhas preocupações são outras. Sou vaidosa, detesto engordar, mas também seria assim se fosse veterinária. E não me incomoda que a TV seja a maior referência para o trabalho de atriz, nem ligo. Digo na recepção do hotel que sou atriz, a moça levanta os olhos para ver se me reconhece e volta a preencher minha ficha sem me dar bola. Sinto muito, mas não estou nem aí se não vou ser assunto na sua casa na hora do jantar. Se bem que o teatro que eu faço deveria ser assunto na sua casa. O que eu faço e o que um monte de gente faz.

Sobre a segunda pergunta: é claro que é possível desenvolver um trabalho sério e ético em qualquer lugar do planeta, mas as pessoas decidem não fazer isso na maioria das vezes. Vamos combinar o seguinte: chega dessa babaquice de botar a culpa pela mediocridade da cultura na TV. Todo mundo combinou que ia ser medíocre de uns tempos para cá e está todo mundo se esforçando para isso: os jornais, as rádios, as revistas, a TV e pasmem, o teatro, que é também um menino muito esforçado. Mas é o primo pobre então todo mundo vai lá e passa a mão na cabeça dele. Eu não salvo o teatro, não salvo a literatura, nem a música, nem a imprensa, nem a TV. Porcaria não escolhe lugar para se encostar. Se os outros setores da cultura vivem desse glamour cafona porque o teatro não se contaminaria disso também? Quem manda na cultura hoje é o dinheiro dos anunciantes. E a mídia (que somos nós também, não se esqueçam disso) vai obedecer como uma boa e brega menina.

Eu já vi peça de teatro começar com anúncio de restaurantes apoiadores. Os atores que você ia ver dali a cinco minutos na peça, que por sinal era legal pra caramba, tinham que dizer que comiam aqui ou ali. Que vergonha!

Vejo atrizes "de teatro" dizendo "é show", "é tudo", "tá podendo" porque não abrem uma merda de um livro há anos.

Então o que sobra? O indivíduo. A autocrítica. A responsabilidade por sua própria formação cultural. A coragem de dizer que não vai comer o canapezinho. Não é tão difícil assim. As pessoas é que chegaram a um grau elevadíssimo de acomodação.

E agora vamos à pergunta que adoram fazer para atrizes "alternativas": Você aceitaria um "eventual" (adorei o eventual) convite para fazer parte de um elenco de telenovela da Globo?


Mônica Raphael e a Cia. Ocamorana em cena de
As aventuras e desventuras de Maria Malazartes durante a
construção da grande pirâmide

Muito respeitosamente colocaram a palavra eventual para deixar claro que nós atrizes "alternativas" não temos nada a ver com isso e que isso é portanto uma espécie de possibilidade remota. Nem tanto. Conheço atores e atrizes bem radicais que fizeram o famoso "registro" para a Rede Globo de Televisão. E tenho comigo uma entrevista que dei aos seis anos de idade onde digo que quero ser atriz para que minha mãe me veja na televisão. Ainda quero. Acho o veículo mais legal que alguém já inventou. Sempre me fascinou o poder incomensurável de comunicação da TV. Mas e as telenovelas da Globo? Por que elas não são tão legais como eram quando eu tinha seis anos? Por que agora eu sou adulta e sei e li e vi coisas que me fizeram mudar de idéia? Não sei. Talvez não seja só isso. Mas o fato é que eu não fiz o "registro" nas duas vezes em que me chamaram porque eu acho muita função e não tenho saco para isso. Acho que só dá para saber se faria ou não se me convidassem. Mas eu nem tenho registro lá. E eu ia querer saber o que eu iria fazer e essas coisas todas. Não é mais tão fácil. Talvez porque eu não tenha mais seis anos.

Soraya Aguillera: Esporadicamente a televisão apresenta trabalhos sérios e éticos sim.

Eu não me sinto muito à vontade para falar sobre televisão, porque nunca fiz, é uma outra linguagem, outro público, porque haveria de me incomodar? Eu nunca me interessei verdadeiramente pela televisão, o teatro é o único veículo que realmente me mobiliza.

Se um dia eu me interessar pela televisão, poderei responder esta pergunta com mais propriedade.

Georgette Fadel: Existem muitas pessoas éticas, muitos artistas interessantes e interessados numa ação ética dentro da televisão, ou da tv Globo, sem dúvida. Mas a função nefasta que hoje a maior parte das emissoras cumpre de transformar em objeto passivo o espectador, entupindo-o de superficialidades irrelevantes e transformando-o num animal repetidor de bobagens, essa função é tão bem exercida que nos parece impossível reverter esse quadro.

Atualmente seria incapaz de aceitar um convite para fazer parte de um elenco de telenovela na Globo. Talvez aceitasse um convite para escrever uma novela, se eu tivesse liberdade total para fazer e falar o que eu quisesse.