Soraya Aguillera (à direita) em Filosofia na Alcova , montagem da
Cia. Os Satyros baseada em texto de Marques de Sade

Nádia de Lion: Não, acho que não atrapalha. Eu até aproveito alguns exemplos para mostrar alguns valores, como no Teatro Vocacional que foca bem a criação e manutenção do teatro de grupo. Eu não sei nada de televisão como atriz, nunca fiz nada. Devem existir pessoas sérias e éticas em TV, sim.

Eu acho que deve ser muito difícil recusar um trabalho na Globo. Só mesmo se eles oferecerem condições muito precárias, aí as pessoas recusam mesmo.

Isabel Teixeira: Como já disse, teatro e televisão são linguagens diferentes. O fato de muitas vezes eu não ser reconhecida como atriz porque não faço televisão nunca me atrapalhou em nada. E se me convidassem para fazer uma novela eu faria sim. Tenho muita vontade de explorar todos os campos que a minha profissão me permite. Eu acho muito chato esse puritanismo que dita que uma atriz de teatro se vende quando faz televisão. Deve ser bem legal. Outro ritmo, outra luz, outra dinâmica.

Mônica Raphael: Sim, atrapalha bastante a forma como a mídia perverte, além de impor um modelo de beleza e atuação na maioria das vezes lamentável.

È possível um trabalho sério e ético dentro da televisão, mas é pouco provável. Temos algumas exceções que confirmam esta regra.

Se fosse um trabalho que não contrariasse meus princípios, eu faria sem problemas.

Renata Zhaneta: A televisão é um veículo muito bom. A forma como está sendo utilizado é que tem sido nociva à construção de uma cultura verdadeiramente brasileira. Penso que ao invés de consumirmos enlatados de péssima qualidade como o que existe agora, poderíamos realizar programas de alto nível. Vocês já imaginaram se no lugar da novela das oito assistíssemos adaptações de "Rasga Coração", "Rasto Atrás", "Bella Ciao", ou até "Cantos Peregrinos"?

O ator não se divide em ator de teatro, de cinema ou televisão. É ator! As escolhas são feitas conforme suas necessidades e visão de mundo.

Mário Bortolotto: O que é que você espera em sua carreira? Conseguir se tornar atriz de mercado capaz de fazer qualquer trabalho (geralmente é assim que se ganha dinheiro na profissão) ou se tornar atriz personalíssima com estilo próprio e identificada com um tipo específico de trabalho?


Renata Zhaneta em Cantos Peregrinos
de José Antônio de Souza

Mônica Raphael: Espero poder fazer cada vez mais trabalhos dignos.

Isabel Teixeira: Eu não costumo fazer o que vai aparecendo, não. Eu me apaixono pelas coisas que eu faço. E sempre fui eclética nas paixões. Tenho um pouco de medo de me tornar essa atriz específica que só faz um determinado tipo de coisa. Para mim seria um tédio. Gosto da idéia de liberdade. Não me venham prender numa só rotina que eu morro. O nome Cia. Livre de Teatro me agrada muito. Deixa o horizonte aberto para novas possibilidades.

Renata Zhaneta: Sempre pensei em construir uma carreira que me desse prazer artístico. O restante é consequência e está sujeito à conjuntura.

O prazer da investigação, da descoberta, do aprimoramento técnico e, principalmente, o prazer do encontro comigo mesma na tentativa de me transformar como ser humano a cada trabalho. Este é o verdadeiro sentido de tudo. Teatro pra mim é vício! Vixe!

Silvana Abreu: Espero conseguir ser o máximo possível sincera com minhas inquietações e com a poesia que pode me atravessar. Essas inquietações determinam os caminhos a serem seguidos, e não o mercado ou as possibilidades de trabalho. Também não penso em buscar estilo ou identificação, pelo contrário, estar viva o suficiente para renovar verdadeiramente a cada trabalho, ter a coragem de abandonar o seguro e testado e enfrentar terrenos desconhecidos. Não desejo ser uma personalidade reconhecida ou uma artista excêntrica, mas quero sim poder ampliar meus recursos pessoais e singulares para poder dar o máximo da minha potência em cada trabalho.

Soraya Aguillera: Eu sempre me identifico com todos os trabalhos que escolho.

Estou (inteira) na companhia de teatro Os Satyros.

Acho fundamental para o ator o trabalho em grupo. A constância, a valorização do processo, a pesquisa, a experimentação, o trilhar juntos num mesmo sentido, ajudam a vencer limites e encontrar novos caminhos.