A escritora paulistana Andréa del Fuego inaugura a estante de literatura da editora Nome da Rosa com seu primeiro volume de contos intitulado Minto enquanto posso.

Não é de hoje que del Fuego nos brinda com seus textos calcados, sobretudo, no universo feminino. A autora já havia publicado em revistas e páginas da web, além de ter participado da antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizada pelo escritor Marcelino Freire. Editava a coluna “F!Mulher” no Falaê, onde tratava sobre a sexualidade feminina. Também escrevia a coluna “Centrífuga” na página do BOL. Seus contos podem ser lidos em sites como o próprio Falaê!, Capitu, Digestivo Cultural, entre outros. Aqui na Etcetera publicou três textos (ver números anteriores). Sua estréia em livro é fruto de um trabalho de dois anos.

Andréa del Fuego escreve com simplicidade ímpar. Engana-se quem pensar em simplicidade como escassez de recursos. A escritora não se dá a malabarismos de linguagem e tampouco a tramas labirínticas, seu trabalho busca uma expressividade exata, concisa e poética. O que prevalece em seus contos é a estória, a maneira como ela é contada, sobressaindo assim a grande gama de significações existentes no subtexto. Por isso mesmo seu livro requer mais que uma leitura, quem ficar na superficialidade do texto dificilmente vai compreender a poesia presente em suas linhas.  É justamente através do emprego de uma forma simples  que a escritora prende a atenção do leitor e o envolve em seu universo predominantemente feminino. Quando menos se espera está-se arrebatado pela trajetória de suas personagens.

A edição do livro merece destaque, principalmente em se tratando de um trabalho de estréia. Nota-se uma preocupação desde a composição da capa até a diagramação e organização dos textos. A apresentação é da cineasta Tata Amaral, escolha correta já que a narrativa da escritora é extremamente visual, imagética.

Os 24 contos são organizados cronologicamente, o primeiro tem como protagonista um ser ainda oculto da qual só se conhece o pensamento: um feto em formação no ventre. Já o último mostra algumas senhoras numa partida de canastra. Nesse trajeto passeiam as mais diversas personagens: uma menina que ouve a voz de sua mãe sem a mesma estar presente, a adolescente que descobre sua sexualidade num banco de ônibus de viagem, a prostituta que perambula fantasmagórica pelo centro sujo de São Paulo, a mulher perdida numa ilha deserta, etc..


Andréa del Fuego: prosa
simples e certeira

As mulheres em Andréa del Fuego são comuns, cotidianas: meninas inocentes, mães, casadas, solteiras, amantes, putas...Na verdade em cada personagem há uma pitada de tudo isso, revelando toda a complexidade e multiplicidade do universo feminino que a escritora traz à tona. 

Os homens em seus contos são extensão desse universo e embora sejam planos representam a transformação das mulheres no livro. O mito de Adão e Eva subvertido. São másculos e viris, freqüentemente chamados de machos. Nesse sentido suas personagens masculinas são naturalistas por excelência, animalizados e ligados ao instinto. A imagem do homem touro é recorrente. Daí pode-se fazer uma analogia à figura mítica do Minotauro e o poder de sedução que exerce no imaginário feminino.

Um problema que o livro apresenta é que alguns contos têm uma estrutura que se aproxima mais de uma estrutura de romance, demarcado tanto pela excessiva descrição quanto por uma diluição do núcleo conflitivo. Há também uma insistência com um certo tom realista predominante e que não combina com a prosa da escritora, nesse sentido seus contos eróticos se destacam na medida que fogem desse realismo.  

Afrodite num altar em chamas

O erotismo presente em alguns contos de Minto enquanto posso vai além dos clichês do gênero, com habilidade e sutileza a escritora o transforma em poderosa metáfora da conquista, da transformação e, sobretudo, da liberdade.  É possível encontrar no erotismo de Andréa um interessante jogo de paradoxos - o desejo carnal de suas personagens ganha certa transcendência ao mesmo tempo em que é demasiadamente mundano -  quando o ato sexual se transforma em “dança sagrada”, e Deus passa ser “um orgasmo nervoso e rápido” .  Esse jogo entre sagrado e profano (antes evidenciado pelo emprego de epígrafes bíblicas que foram deixadas de lado neste livro) permeia a maioria de seus contos eróticos. 

O humor e a crítica a uma sociedade que oprime e condiciona os desejos estão implícitos em suas mulheres que são vítimas das próprias mentiras. A escritora brinca até no título e subtítulo do livro - Minto enquanto posso / Na verdade minto porque quero -  ora fazendo metalinguagem, ora fazendo alusão às personagens. Sobressai-se uma verdade em sua escrita e isso nem título e subtítulo podem desmentir.  A prosa de Andréa del Fuego é um tiro com silenciador. Não faz barulho, não causa estardalhaço, mas rasga a carne e fica queimando lá dentro, “cada bala queima com devoção...”.


Sandro Eduardo Saraiva
Escritor e desenhista. Edita a revista Etcetera
sandro@revistaetcetera.com.br