O Cinema Argentino: mercado e estética

I - Introdução

O estado das cinematografias no cada vez mais restrito "circuito de arte" é tão calamitoso que na maior parte das vezes para o espectador brasileiro é mais fácil assistir a um filme de Taiwan do que de seus vizinhos latino-americanos. Ou ainda, poderíamos dizer, se para o brasileiro é difícil ter acesso aos produtos culturais de seu próprio país, o que dizer dos de seus vizinhos? Para o cinema, a mais comercial de todas as artes, esse raciocínio se extrapola, numa conjuntura mundial em que 90% dos mercados de todo o mundo é dominado por uma única cinematografia: a norte-americana, ou ainda, a hollywoodiana. Se nos anos 60 era possível falar em uma cinematografia latino-americana, dada a efervescência política e o desejo pela criação estética, dada a utopia de romper os exíguos limites de nosso continente em torno de um projeto de unir os laços entre os cineastas de diferentes países num processo de resistência cultural, nos anos 80 e 90 o que se viu foi o gradual aniquilamento das cinematografias latino-americanas devido a um perfil econômico que assolou o mercado de salas de cinema mas que possivelmente (como sempre) cruza por um perfil ideológico. Brasil e Argentina, os dois principais mercados da América Latina, passaram por um processo semelhante: o fechamento dos cinemas de rua e a redução do apoio do Estado à produção dos filmes nacionais. Em meados dos anos 90, houve um processo de retomada, como sempre, bastante mais lento e gradual do que foi o de enxugamento desse mesmo mercado: reconquistar espaço perdido no mercado cinematográfico tem se revelado sempre muito mais árduo do que medidas para a manutenção de sua ocupação. Neste novo século, os processos políticos têm ajudado a reinventar o desejo por um mercado nacional, mas desta vez inserindo o filme como um produto audiovisual, dada uma necessidade de mercado e a possibilidade de recuperar seus custos ao longo da cadeia do audiovisual e suas diferentes janelas de exibição.

Hoje, os dois países vivem um momento fantástico, particular em sua escala de reocupação do produto nacional. No entanto, são momentos muito próximos e muito distantes, numa certa medida quase o reverso da moeda. O Brasil vive um momento de expressiva ocupação do mercado interno (22% do público das salas de cinema em 2003 no Brasil foram assistir filmes nacionais), com resultados de bilheteria impactantes com a participação da Globo Filmes. Já a Argentina vive um momento não do cinema comercial, mas do circuito de arte, especialmente pelo destaque nos festivais internacionais. Atualmente, a Argentina produz pouco mais de 50 longa-metragens por ano, um número volumoso, dado o tamanho de seu mercado interno, com um vigor estético unanimemente elogiado por todo o mundo. Entretanto, esses lançamentos têm uma grande dificuldade de atingir seu próprio público, dada a restrição do número de salas do circuito de arte no país. Algumas medidas têm sido tomadas para aproximar os laços entre os países latino-americanos, especialmente os de Brasil e Argentina. Recentemente, a ANCINE e o INCAA (os órgãos reguladores de cada país) assinaram um acordo de reciprocidade na co-distribuição de filmes, ou seja, o apoio financeiro a distribuidores para o lançamento das películas argentinas no Brasil e de filmes brasileiros na Argentina. Esse apoio fez o público brasileiro do circuito de arte ter a oportunidade do acesso a obras ímpares como Lugares Comuns, El Bonaerense e Histórias Mínimas, por exemplo. Avaliar corretamente o "fenômeno" do cinema argentino é portanto levar em medida os aspectos econômico e estético. Por isso, seguem dois textos: o primeiro, dando conta da recuperação do cinema argentino a partir da década de 90 sob uma ótica essencialmente mercadológica, fazendo uma comparação com o caso brasileiro; o segundo, avaliando as semelhanças e as diferenças estéticas entre dois filmes: O Pântano e Lugares Comuns.