ADEMIR ASSUNÇÃO é poeta, prosador e jornalista. Antes de tudo, um artista que tem consciência de linguagem, sabe do que está falando. Não está aí pra masturbações ou igrejinhas literárias. Suas referências vão de Jimmi Hendrix a Samuel Beckett, de Frank Zappa a Jorge Luis Borges, de National Kid a Franz Kafka. O homem não está de brincadeira, não alisa na hora de falar da manipulação da mídia, da censura branca das redações dos jornais e dos meios de comunicação. Seu livro mais recente, e praticamente ignorado pelos grandes cadernos de cultura do país, Adorável Criatura Frankenstein é uma porrada na cara, uma faca no estômago com direito a retorces. Um livro inventivo e que traz uma apreensão da realidade muito maior que qualquer obra que se pretende realista, destoa de grande parte da prosa naturalista que é feita hoje no Brasil. Além de vários livros publicados e poesias musicadas por Madan, Itamar Assunpção e Edvaldo Santana, Ademir mantém um blog na rede e edita a Coyote, revista de arte e poesia. Também é um dos organizadores do movimento Literatura Urgente, onde reivindica maiores cotas e uma política pública para a literatura.

Neste bate-papo regado a cerveja e blues, várias questões foram respondidas sem mesuras ou papas na língua, todas com o apurado senso crítico e o olhar ferino do escritor que não tem medo de escrever poesia e acredita no potencial transformador da palavra.  (Sandro Eduardo Saraiva)

Revista Etcetera:

Por que o lançamento de um livro atual e urgente como Adorável Criatura Frankestein não teve muito espaço nos principais cadernos de cultura do país?

Ademir Assunção: Porque eu acho que os principais cadernos de cultura do país estão adormecidos. Eu acho que é um livro provocativo que inclusive ironiza a própria imprensa, ironiza essa indústria de criação de mitos, de manipulação da realidade e na minha opinião a literatura, ou pelo menos uma parte dela, incomoda. Embora não pareça, quando você toca na ferida ainda existe uma resistência. Em São Paulo saiu no Estadão, na Folha, fora daqui muito pouco, mas  é como eu disse, são duas coisas, existe esse incômodo de que eu falei, e os editores e repórteres estão muito adormecidos, ficam esperando chegar o release das  grandes editoras na redação, e também às vezes o que vale é você ficar fazendo amizade com os caras, puxando o saco, e eu sou incompetente para isso, aliás tenho aversão.

Etc: E você acha que isso acontece mais por burrice ou por esperteza dos caras?

AA: Talvez uma mistura dos dois, eu acredito que há uma certa desinformação. Se você observar este período que estão falando tanto da geração 90. Pô as pessoas vinham publicando há muito tempo. É como o Lenine falou em uma entrevista, quando ele surgiu já tinha por volta de quarenta anos de idade, com um trabalho que já rolava fazia tempo, e aí ele comentou “os caras ficam falando que eu sou novo e eu estou fazendo isso faz tempo”, é estranho.

Etc: Parece que os caras querem mostrar autores, compositores, enfim, artistas que eles julgam “prontos”. Eu acho interessante editoras novas que publicam autores que estão em processo, mas isso não é valorizado, né?

AA: E eu acho que tem outra coisa, eu faço parte de uma geração que ficou meio prensada, porque houve aquela geração dos anos 60 que teve um trabalho muito forte no campo da música, do teatro, do cinema, etc. e que ficaram em evidência por muito tempo. Durante muito tempo ficaram voltados para esses criadores sem prestar atenção nas coisas que aconteciam em volta, e já vinham outras pessoas surgindo, trilhando outros caminhos, assimilando coisas novas, trazendo outras informações e estava todo mundo olhando para trás. Eu acho que o que está pintando hoje está conseguindo mais visibilidade do que aquela geração que hoje está por volta dos quarenta. Eu penso que a gente ficou num hiato. A gente já estava criticando e ironizando coisas que já tinham ficado institucionalizadas, ex-rebeldes que já tinham virado burgueses, estrelas. A gente já vinha ironizando isso mas ninguém estava prestando atenção. Ninguém em termos, porque o Brasil é grande, havia pessoas por aí que estavam ligadas.

Etc: Já escreveram críticas classificando a sua prosa como literatura pop, o que você pensa a respeito?