“and so we go away from Alex's vision a little better than we were a minute before”
 Ken Wilber, prefácio do livro teórico de Grey “The mission of art” p.xiv


Vision and Mission

Visitando uma livraria mística num recôndito mercado de flores de uma antiga e perversa cidade, o idoso livreiro sem mais aquela intuiu que eu tinha interesse em simbologias (Semiótica da Arte) e indicou-me o setor de arte esotérica, lá reconheci em um lindo livro colorido imagens que já me fascinaram antes, vislumbradas sem créditos de autoria em diversas revistas de círculos de estudiosos das antigas tradições simbólicas. O livro era Espelhos Sagrados, de Alex Grey.

Grey impressiona pela técnica das transparências com as quais dá verdadeiras aulas de anatomia humana, ilustra pessoas de ambos os sexos meditando, ou no ato sexual, e sempre demonstra uma impressionante maturidade mística ao apresentar suas intuições com clareza, mesclando com admirável precisão simbologias sagradas indianas, chinesas, astrológicas, alquímicas, cristãs, judaico-cabalistas e outras, sobrepondo em detalhados corpos humanos desde a  Otz Chain (árvore da vida – cabala e os escribas talmúdicos sofer concentrando-se na caligrafia sacra da Tora para atingir a intenção concentrada- kavanot, similar ao sho dô dos kanjis desmanchados chineses taoistas e zen nipônicos e a caligrafia sufi muçulmana de frases do Corão) com chacras (yôga da Índia) aos meridianos (acupuntura chinesa) e fotografias Kirlian, harmoniosamente combinadas com Tantra (maithuna, coito sagrado indiano), xaman -pajelança e arabescos sufi árabes, escritas frases sagradas de orações em sânscrito, chinês, hebraico, latim, e diversas línguas sagradas antigas, combinando-se até com atuais dados científicos de DNA, física de partículas, campos, quanta, supercordas, etc..

A Catedral de Grey, sua “Capela Sistina” é um projeto também on line em seus websites na Internet, existindo virtualmente como Web Art, um trabalho de intensa religiosidade que introduz o fruidor em inevitável contato com o divino, até o nível de consciência que consiga suportar, em graus ascendentes de uma espiritualidade linda.

São os Espelhos Sagrados, alta arte sacra ecumênica, inserida em uma ética e estética da religiosidade tolerante e aberta à diversidade, apresentada com layers-transparências-palimpsestos tipicamente da sensibilidade do século XXI; Grey mostra individualmente homem e mulher, brancos (caucasianos), negros (africanos) e asiáticos (mongolóides) simbolizando as raças humanas, o fruidor escolhe o sexo e raça, a seguir Grey nos mostra na série o corpo sem pele, e o conceito de raça começa a desvanescer-se e vamos em um exercício de dissecação que é uma aula detalhada de anatomia onde nos vemos gente a um espelho analítico de tamanho natural onde reflete-se nosso sistema circulatório, sistema linfático, esqueleto, órgãos, músculos,cartilagens, etc..

O fruidor é desafiado a ir e voltar no corpo humano percebendo a relatividade de ser branco ou negro, homem ou mulher, des-identificando-se com o corpo físico (como no tibetano Bardo Thodol) convidando a mais pura meditação zen, tao, sufi, Buda.

E na escolha do corpo feminino, somos surpreendidos com a gravidez, a beleza da gestação alterando formas da bacia e ampliando o ventre, com a transparência do feto e embrião crescendo, comovente e tocante. Uma experiência transcendental é olhar estas peças maravilhosas, um privilégio!


Eye of the Heart

A arte a serviço da elevação ao divino, Grey nos leva além de preconceitos, mesquinharias e identificações ilusórias (Maya), chegando ao campo infravermelho térmico do calor emanado do corpo, um campo energético que todos sentimos ao abraçar a amada em um dia frio; e daí Grey vai nos alçando a vôos maiores, mostrando o padrão vibratório das glândulas-chacras-sefirots gerando campos mais sutis como registrados nas fotografias kirlian, atingindo o eu espiritual, o self junguiano, composto de sutis campos quânticos de pura energia (matéria é energia), passando pelas representações do divino em diversas culturas até a imagem não antropomórfica de um sol ou bola de luz que vivenciamos nas mais altas projeções – viagens astrais fora do corpo físico, no espaço sem onde e no tempo do agora perpétuo, o gerúndio quântico, o presente permanente dos alquimistas, o giro sufi, o êxtase da iluminação, satori, samadhi.

O que São Francisco de Assis mostra em sua oração mais conhecida- “fazei de mim um instrumento de vossa paz”, o amém das orações onde “seja feita a Vossa vontade” onde todos somos emanações do UM, filhos do mesmo pai-origem, irmãos... irmão Sol, Irmã Lua, irmã pedra, irmão jumento.

Outras obras, quadros a óleo como Beijando que mostra em transparência um casal unido pelo beijo com o símbolo grego apeíron, infinito, o oito deitado, unindo-os pelo timo no peito e pela pineal na cabeça, outra imagem comovente que faz lágrimas de comoção saírem dos olhos, nos tocando com cores e luzes como O Beijo de Rodin faz no tridimensional com volumes e sombras do casal congelado na ansiosa fração de segundo antes do toque dos lábios no primeiro beijo.