

— Ainda Surrealismo? Poder-se-ia perguntar o leitor. Respondo com outra pergunta:— Por quê não? Mas do que outros quereriam, alguns verão no surrealismo uma amostra conservada no formol. Desta forma, segundo eles, para seu estudo seria necessário um perito em dissecação. E, também, um remedo de Linneo para localizar este animal já sem vida dentro da ala zoológico-literária do passado, com um rótulo amarrado ao dedo mindinho de um dos seus pés ou patas. De um modo quase singular, e arrisco-me a dizer único, se esquecem que o surrealismo no universo da arte foi mais que uma expressão, foi uma interpretação de vida, uma ferramenta ao conhecimento; melhor dizendo, e bem como percebe Aldo Pellegrini: uma concepção de mundo. Assim, ao contrário do que alguns poderiam pensar, o animal respira, vive, toca-nos e ainda nos acompanha depois de décadas de existência. Formulada por Breton, a confirmação de uma ética é por toda a arte e não apenas à arte, um objeto infalível - já avistado anteriormente por Kierkegaard no sentido de fazer da ética e da estética a mesma coisa.
Uma vez, eu li que o surrealismo só poderia nascer na França e dentro da França, em Paris. Assim ao que se pensava, lançavam-se sólidos argumentos a seu favor. Então, como fazer para dar conta da influência surrealista na América, no Japão, no Egito? Se bem que esta vanguarda teve sua origem na França, e, em diversidade também das outras originadas naquele país - o surrealismo por seus seguimentos, formas e objetivos ultrapassou a limitada condição da arte com as exatas características para ser um organismo ativo, poderoso e extremamente abrangível. Foi desde o princípio, e novamente Pellegriniando, um amor concreto lançado à ativa luta contra os males que mantêm o homem consumido na mentira e na abjeção, essas dominantes que estão subjacentes ao esquema moral da nossa sociedade. E também, uma chama tépida diante da imbecilidade, da imundície, da cruel e sinistra imbecilidade que tão facilmente se apropria do poder, e governa os homens e a consciência.
Duas idéias resistentes incitaram o movimento: a liberdade e o amor. Aqui e agora podemos propor algo diferente? Não, sem dúvida que não. E nisto, parece-me, reside seu vigor. Em 1965, Pellegrini dizia: os males denunciados pelo surrealismo há quarenta anos não só persistem, mas também foram acentuados. Hoje, em 2004, diante da enumeração desses males que cria o intelectual argentino falsos esquemas e fracionamento da sociedade em todos seus planos, percebemos que o processo, denunciado por Breton e os seus adeptos, prossegue e penetra até o inconcebível. Liberdade e amor, disse. A realização completa do homem e da sua frustração da qual apenas se logram escravos ou tiranos. Como se viu anteriormente, amor concreto e não parvoiçada nem beneficência.
É, portanto, motivo de celebração a edição desta antologia. Saibam, este livro é fruto de um longo e paciente trabalho; de um trabalho em conjunto embora na capa apareça apenas o nome de seu mentor: Floriano Martins. Poetas, artistas plásticos e tradutores acrescentaram seu talento e esforço para concebê-lo. Trata-se da união de jovens genuínos não importando as idades, quando se refere a estas realizações sempre se tem referência a esses genuínos, como em um instante de amor.