“Um homem deve ter uma nacionalidade, assim como deve ter um nariz e duas orelhas. Tudo isso parece óbvio, embora, sinto, não seja verdade.”

Ernest Gellner

Como o próprio título já sugere, há uma construção histórica e política em torno da idéia de nação e nacionalidade, bem como uma homogeneização das características consideradas comuns a determinada cultura cuja influência evidencia-se na construção de uma suposta identidade nacional. A proposta desse artigo é portanto desconstruir alguns elementos que compõem esse imaginário social que legitima a “nação” relevando secundariamente prospectos em torno da “identidade brasileira”.

Somos brasileiros apenas por termos nascidos no Brasil?

O conceito de identidade é complexo e não se refere apenas ao sujeito da ação, amplia sua concepção sociológica à esfera pública e a retorna para a subjetivação mediada pelos valores, sentidos e símbolos de uma cultura específica. Isso faz com que o sujeito se identifique com as características de seu país, internalizando-as e expandindo seus valores e significados como algo inerente à sua condição nacional, ou seja, tornando-as como “parte de nós”.

É curioso notar que por mais que se fuja do senso-comum, quase todos indivíduos afirmarão que muito daquilo que são advém do fato de terem nascido em determinado país, falarem certa língua e possuírem os mesmos costumes. Mesmo que tal afirmação esteja associada às influências sócio-culturais no campo da subjetividade, há outros elementos que alimentam o sentimento de nacionalidade e dão sentido à nação. Assim, a noção de identidade além de ser histórica também é fruto das fantasias e do imaginário social sobre a idéia de cultura nacional. E essa idéia tange a esfera política e ideológica de como tal cultura é representada seja pelo povo seja pelos aparelhos ideológicos e institucionais.

Em 1882, o historiador Ernest Renan, embora não tivesse em mente conceitos mais precisos como os contemporâneos para analisar a idéia de nação, já apontava elementos que desmistificavam as abordagens, principalmente as oriundas do senso-comum. As mais gerais são aquelas associadas à idéia de uma mesma raça, religião, língua e costumes, além da questão das fronteiras, dos limites territoriais que favoreciam o sentimento de nação. Qualquer análise com coesão histórica e política mostra que tais fatores são equivocados; primeiro porque nem todo povo possui uma etnia una nem mesmo uma religião, os credos, a língua  e os costumes. É fácil verificar a diversidade racial e lingüística de muitos países; mas como ocorre a subjetivação desses elementos para proporcionarem o sentimento de nacionalidade? Mesmo considerando que nação é uma idéia real construída historicamente, como se afugentar das tradições e dos ícones nacionais?

A idéia de nação como um sentimento histórico

Neste sentido, Renan mostra que a construção da idéia de nação advém de um princípio espiritual que envolve sentimentos que se findam na homogeneização das tradições e na concepção de um passado em comum, mítico e imaginário. Esse conceito de imaginário, por mais polissêmico que se apresente hoje em dia, é de tamanha utilidade para compreendermos as bases do que se afirma como sendo uma nação. Se o imaginário se afirma no indivíduo sobre o sentimento e o ideal – abstrato, no povo ele se faz real e concreto. Ou seja, o imaginário não é algo somente supra – social, mas algo que se afirma na realidade em termos práticos, como por exemplo, ter a sensação de pertencimento a uma nação pelo fato de estar com uma bandeira ou uma camiseta do país. O que dá coesão e base para esse imaginário social é a articulação das questões culturais e históricas, de determinada época e país, com a idéia de sentimento e pertencimento. Por isso que nação, para Benedict Anderson, é “uma comunidade política imaginada como inerentemente limitada e soberana” (ANDERSON, 1993, p.23), ou seja, o político se manifestando através da necessidade das fronteiras e dos elementos culturais e imaginários que se concretizam e legitimam a nação.