Goretti, ainda entrando na puberdade, já é um Deus nos acuda. Tipo que se atropelasse um marmanjo ele nem reclamaria se não anotassem as placas.

As amigas mais saidinhas e segundas torpedeiam: mas o que você está esperando, ainda, pra ir pras baladas?  Ela, mirando o chão, evasiva-se no estilo sei não, acho que inda não é hora. Tá ligada que por onde ande há olhos cafajestes palmeando-a eretos, junta-se uma legião de babões, uns grudes. No chuveiro, durante a muda de roupas, percebe não ser para menos a pegação. Nota em si curvas, saliências,  reentrâncias, volumes, formas, todos capazes de ser fogo no estopim e provocar perdições – e, ainda, as pintas, as pintas estrategicamente postas pela Natureza, como a do canto esquerdo do lábio superior, ah, Senhor da Glória! Também já sente bolirem lá dentro umas químicas, a mesma força que a faz (acredita ser inconscientemente) puxar para cima o jeans até vincar a cona, deixar aberto o botão sobre o umbigo (vai driblar o medo da dor loguin e meter ali um piercing), ajustar as alças do soutien, jogar os cabelos para trás quando caminha pelas ruas, no intervalo da escola. Algo, intui vulcão, está para irromper...                                               

Mas que venha no tempo certo. Quando acontecer, ai, bem, quem pode amarrar trovão? Cavalo desembestado pára sozinho e só onde quer...


Marcelino Lima
Escritor e poeta. Tem textos publicados em antologias de poesia, conto e crônica. Publicou o web-livro de haicais Clarim Quebrado. É colaborador da Coluna do Haicai do suplemento cultural Zashi, encarte do jornal “Nippo Brasil”, do Mural Graffiti (www.kakinet.com) e da Revista dos Haijins (www.sumauma.net). Escreveu Poesia Feita em Casa, Recriar com Haicais, 50Olhos, Pardais & Bem-te-vis, Brincar de Haicai e Ao redor, todos ainda por publicar.
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