

cinema-verdade
Do suporte digital à projeção digital
Uma das características do período da chamada retomada do cinema brasileiro, na segunda metade da década de noventa, é a presença do documentário de longa-metragem nas salas de cinema. Essa presença marca a diversidade estética do atual cinema brasileiro, como uma espécie de contraponto às ficções distribuídas pelas majors e alavancadas pelo apoio da Globo Filmes. Só no primeiro semestre de 2004 foram exibidos comercialmente 9 documentários entre o total de 22 filmes brasileiros lançados no período. O percentual (40%) é impressionante, e dificilmente o mesmo é observado em outros países.
O aumento do número de documentários lançados no circuito comercial possui diversos fatores, que aqui podem ser brevemente relacionados. Entre eles, está o próprio perfil das leis de incentivo fiscal, cujo foco é mais concentrado nos recursos necessários à produção do projeto do que com sua viabilidade econômica e performance de mercado. De qualquer maneira, cabe registrar um fato negativo: a penetração dos documentários nas salas de exibição reflete sua ausência nos canais de televisão, onde, a princípio, o produto teria uma maior adequação. Até o início dos anos oitenta, por exemplo, um programa como o Globo Repórter era uma verdadeira escola de documentaristas: toda semana eram exibidos trabalhos captados em película 16mm realizados por profissionais como Eduardo Coutinho e Maurice Capovilla. Hoje, apesar das transformações do conceito das janelas de exibição, o documentário ainda tem circulação bastante restrita, podendo ser visto em um ou outro canal fechado como a GNT, mas sem a repercussão da TV aberta.

Justiça: estética inovadora no
documentário brasileiro
Mas o principal fator de difusão do documentário de longa-metragem nas salas de cinema é possivelmente a difusão da tecnologia digital. Documentários captados com uma simples câmera MiniDV podem chegar às salas de cinema, como é o caso do recente Fala Tu. O digital trouxe ao cinema documental uma transformação de âmbito estético e econômico. De um ponto de vista estético, a câmera leve e portátil conferiu maior flexibilidade às gravações, além de evitar as desnecessárias trocas de rolo. Em termos econômicos, o digital reduziu consideravelmente os custos de produção, tornando possível a utilização de horas de material gravado, economizando o custo do negativo e de laboratório (revelação e copiagem). A maior utilização das ilhas de edição não-linear facilitou em muito o trabalho de montagem do documentário, especialmente se a captação é feita em digital, reduzindo problemas de sincronização e de seleção do material gravado.
Normalmente os filmes em digital, para serem exibidos em salas de cinema, precisam passar por um processo de transferência da matriz digital para uma cópia em película 35mm. É o chamado “transfer”, que ainda permanece sendo um processo custoso (por volta de R$1.000 por minuto), o que dificulta a finalização desses filmes. Nesse sentido, uma revolução análoga à difusão das câmeras digitais pode ser criada com a implementação das salas digitais. Ou seja, um filme captado em digital pode ser exibido numa sala de cinema sem precisar passar pelo processo de transferência: a própria sala de exibição estaria apta a exibir, com alta definição, a partir de projetores digitais, um longa-metragem com uma matriz digital. Para o documentário, especialmente o documentário brasileiro, pode ser um fator decisivo para que o filme consiga chegar às salas de cinema, já que o custo do transfer muitas vezes inviabiliza economicamente a exibição do filme, até porque em geral o documentário passa em um número bastante reduzido de salas. Além disso, o custo de uma cópia adicional (uma cópia em 35mm de um longa-metragem custa cerca de R$5.000) muitas vezes pode acabar inviabilizando a exibição do filme em uma nova sala .