

Em 1893, Edward Munch deixou que o mundo ouvisse o seu grito. A arte continua a gritar. Quer só assustar ou nos avisar de algo?
Tocado por Munch, Ensor, Van Gogh e Egon Schiele, Mutarelli grita também. Seu grito é baixo, rouco, quase que um sussurro. É preciso querer ouvir. O espaço das folhas em branco é quase que totalmente dedicado a pensamentos sombrios como a angústia, o existencialismo e seu pessimismo tão realista.
Mundo Pet (Editora Devir) é um livro em quadrinhos que contém 12 histórias curtas, publicadas anteriormente pelo site Cybercomix . As páginas foram confeccionadas para o mundo virtual mas com o objetivo final de serem publicadas em livro. Foram produzidas simultaneamente à trilogia iniciada em 1998 com O Dobro de Cinco. Como a temática das histórias do detetive Diomedes pertencia a um mundo muito ficcional, Mutarelli encontrou outro meio para narrar histórias mais pessoais.
São histórias condensadas, como contos, que apresentam uma galeria de personagens inseridos em um universo sombrio, patético e melancólico. Talvez, por saber que primeiro seriam apresentadas em uma tela de computador, o desenhista economizou balões e apresenta quase todas as histórias com recordatórios. É possível que tal recurso tenha aproximado o quadrinhista do universo literário. Destrudo pode muito bem ser lida como um poema.
Mutarelli parece ter aproveitado a oportunidade e libertou-se para realizar tais experimentalismos, tanto na composição narrativa quanto nos desenhos, o autor explorou técnicas e ferramentas. Utilizando nanquim, ecoline, xerox e photoshop, reinventou seu próprio estilo. A catarse biográfica se torna clara e evidente, purga quase todos seus demônios. Há até uma história escrita em Stick Note, bloquinhos amarelos para anotação.
Retratos contemporâneos
Seus personagens multiplicaram-se, ganharam cenários e roupas coloridas mas a alma ainda se preserva em preto e branco. Tudo é muito simples e direto, explica quase todos seus tormentos e traz um significado para a existência do criador e das criaturas. Por sua incansável imaginação, Mutarelli nos apresenta seu Mundo Pet. A figura que estampa a capa é uma releitura mutarelliana do Grito de Munch, tenta gritar também. É o grito seco, que vem da garganta inserida na caverna escura. É o ser sozinho consigo mesmo, um encontro que pode ser terrível mas também revelador. As obras no início do século 20 gritavam “não confiem nos seres humanos” poderiam dizer também “não confie muito na arte”. A arte é uma mentira tão bem contada que esquecemos a verdade. Mas não se preocupem em saber o que é verdade e o que é mentira. Apenas aproveitem a leitura.
Mutarelli não pretende assustar e nem nos alertar para nada, é somente um contador de histórias. Trabalho único mas não solitário, seus leitores estão com os ouvidos bem atentos.
Lucimar Ribeiro Mutarelli
Professora de História da Arte
Defendeu em março deste ano a dissertação de mestrado: Os quadrinhos autorais como meio de cultura e informação: um enfoque em sua utilização educacional e como fonte de leitura. Orientação do Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro ECA/USP.
lumutarelli@terra.com.br