Em 1975, quando eu mudei para o bairro Itaim Paulista, nossa rua se chamava “Rua 8”, durante muitos anos me habituei a dizer este endereço. Alguns anos depois, acho que no início nos anos 80, nossa rua recebeu este estranho nome “Confluência da Forquilha”. Eu me lembro bem de como fiquei triste com a mudança... Quando pronunciava o endereço, as pessoas não entendiam, às vezes, eu tinha até que escrever o nome. Todos os dias, passava por aquela placa na esquina (com o significado de que se tratava de uma bifurcação em um rio do Mato Grosso do Sul) e a olhava com muita raiva. O que as pessoas daquela vila tinham a ver com tal rio? Tantos poetas, compositores, pintores ou escritores a serem homenageados, mas nós deveríamos nos contentar com uma bifurcação. Se eu não me engano, foi formalizada uma reclamação pela associação comunitária do bairro mas não deu em nada. Felizmente.

Felizmente a Confluência continuou lá e deu título a uma das histórias mais amargas do quadrinhista Lourenço Mutarelli. Ainda guardo com carinho o envelope em que a primeira vez ele escreveu tal nome impronunciável como o da balconista de O cheiro do ralo 10 anos depois...

No início da década de 90, o mercado para as histórias em quadrinhos no Brasil tornou-se muito instável: a crise financeira gerada pelo pacote econômico do presidente Fernando Collor desestabilizou as editoras e fez com que essas produzissem materiais destinados a fácil comercialização, tornando quase impossível a publicação de quadrinhos autorais. Porém Gilberto Firmino, que já tinha publicado Desgraçados (1993) e Eu te amo Lucimar (1994), recebeu apoio da Editora Devir para conseguir publicar o quarto álbum de  Mutarelli: A Confluência da Forquilha, finalizado em 1995 mas que só chegaria às bancas em janeiro de 1997. Nesse período, a confecção de histórias em quadrinhos havia virado apenas um hobby para o quadrinhista, visto que ele se viu obrigado a fazer ilustrações para livros de RPG porque a remuneração que se pagava por página de quadrinhos era inferior à dessas ilustrações. 

Mutarelli aproveitou a peculiaridade do momento econômico para denunciar, simbólica e conscientemente, a depreciação da linguagem das histórias em quadrinhos. Cada ilustração feita para o texto de outro autor, valia o dobro de uma página de sua autoria.