

Os personagens Vassoura, Padre e Ração na encenação do
Grupo Folclórico da Nau Catarineta em Cabedelo - PB
Inseridos dentro do enredo do Auto da Nau Catarineta, que é um espetáculo composto de assuntos graves, trágicos e religiosos - que ainda hoje fazem marejar os olhos de velhos brincantes - os personagens Ração e Vassoura “roubam” a cena em determinados momentos deste auto, onde desempenham papéis de destaque. Não existem dúvidas de que a principal característica desses dois personagens seja a comicidade. Utilizando-se desta característica, os dois personagens levam o público a desfrutar de situações hilariantes, causando-lhes grande alívio numa espécie de pausa cômica, em meio àquelas terríveis catástrofes marítimas.
O elemento cômico dentro de uma história trágica, foi bastante utilizado pelos autores elizabetanos, principalmente por William Shakespeare, que certamente não foi o criador de tal fórmula, mas possivelmente resgatou-a de manifestações populares, teatrais e semi-teatrais - das baladas, gestas, dos espetáculos jogralescos, das epopéias e do romanceiro, tanto de sua época quanto de épocas mais remotas,- e também da tradição cômica popular que já existia nos tempos remotos. Mikhail Bakhtin aborda este assunto da seguinte forma,
“A dualidade na percepção do mundo e da vida humana já existia no estágio anterior da civilização primitiva. No folclore dos povos primitivos encontra-se, paralelamente aos cultos sérios (por sua organização e seu tom), a existência de cultos cômicos, que convertiam as divindades em objetos de burla e blasfêmia.”[1]
No Renascimento, com o despertar do interesse pela teoria da arte dramática com inspiração na Arte Clássica Grega, que se tornou maior com o Classicismo Francês, muitos teóricos mostraram-se interessados em reinterpretar, às vezes até de maneira equivocada, a Arte Poética de Aristóteles. Muitos destes teóricos renascentistas se debruçaram especificamente sobre o gênero da comédia, ainda que tenham restado poucos fragmentos a respeito deste gênero literário na Arte Poética de Aristóteles. Quanto a este aspecto é relevante citar o estudo de Marco de Marinis, intitulado Aristóteles teórico do espetáculo:
“[...] Se de fato tentamos ver o mundo pelo qual a tradição classicista simplificou (e deformou) a contribuição conceitual da Poética, constatamos facilmente que - no que se refere à teoria teatral - este foi reduzido em substância em três pontos: 1) a teoria da catarse, 2) a teoria das três unidades e, 3) a identificação teatro= texto escrito. Não é exagero afirmar que nenhuma destas três pretensas teorias Aristotélicas (ao menos em suas respectivas vulgatas) resiste a uma verificação apenas um pouco atenta do texto: estes são, portanto o resultado de uma simplificação e de uma deformação dogmática normativa”.[2]
Nos estudos de muitos desses teóricos classicistas vieram embutidas diversas afirmações preconceituosas. O italiano Antonio Sebastiano Minturno, bispo de Ugento (falecido em 1574), em sua ampla discussão sobre os preceitos da Poética de Aristóteles, em sua obra De Poeta (1559), preconizou na época que os gêneros dramáticos deveriam se diferenciar pelos tipos de desfecho e pelos tipos de caráter e acrescentou que na tragédia só deveriam existir os grandes homens, que faziam parte da aristocracia. Já os mercadores e a gente comum só deveriam existir na comédia, e as pessoas humildes, desprezíveis e ridículas, estariam presentes no drama satírico, gênero este que normalmente inseria em sua trama, situações de crítica social e política.[3] O próprio texto aristotélico diz o seguinte:
“A comédia é uma imitação de maus costumes, não os piores, - e antes uma pintura somente do vergonhoso em que se inclui o ridículo. O ridículo provém de um defeito e de uma tara que não representam um caráter corruptor ou doloroso. Tal é o caso de uma máscara feia e disforme, sem ser ocasionadora de sofrimento.” [4]
É claro que os preceitos de Aristóteles a respeito do gênero da comédia não foram interpretados ao pé da letra pelos teóricos posteriores a ele, porém não cabe neste momento, nem tampouco neste contexto, discutir as interpretações posteriores à Arte Poética de Aristóteles. Antes o que se pretende é refletir sobre a importância do gênero cômico como propagador da arte popular, mais especificamente do teatro popular, criador de tipos e personagens que jamais foram esquecidos através da história e que foram os maiores inspiradores dos grandes autores da cultura oficial. Porém não podemos deixar de mencionar que o estudo do cômico foi e ainda é prejudicado por conta do preconceito que se instalou sobre este gênero, que sofre ainda maior desprezo quando está associado à cultura popular.
Nem mesmo François Rabelais, que é considerado um autor clássico, conseguiu se livrar do estigma de “autor menor”, por ter fundamentado sua obra nas tradições da cultura popular. Acredita-se que por este motivo sua obra tenha sido tão incompreendida pelos críticos da cultura oficial. A este respeito Bakhtin entende que:
“Se Rabelais é o mais difícil dos autores clássicos, é porque exige, para ser compreendido, a reformulação radical de todas as concepções artísticas e ideológicas, a capacidade de desfazer-se de muitas exigências do gosto literário profundamente arraigadas, a revisão de uma infinidade de noções e, sobretudo, uma investigação profunda dos domínios da literatura cômica popular que tem sido tão pouco e tão superficialmente explorada.”[5]
Os espetáculos populares importados da Península Ibérica para o Brasil aqui chegaram ainda imbuídos dos elementos religiosos e moralizantes, extraídos dos autos medievais. Porém, junto ao drama litúrgico, vieram as manifestações profanas, que têm no cômico a sua maior representatividade. Sendo assim, os espetáculos populares brasileiros devem muito de sua popularidade graças à inserção de tipos cômicos que por sua vez possuem origens na Idade Média e na Antigüidade. Muitos dos personagens cômicos dos espetáculos populares e do romanceiro popular brasileiro descendem do teatro popular e profano da Antigüidade - como as farsas Atelanas, os mimos, as saturas, os versos fesceninos, das criações populares do Medievo - como os bufões, os jograis e os histriões - e também da Commedia dell'Arte. Os espetáculos populares brasileiros são herdeiros diretos de toda esta vasta e rica herança cultural européia.
Em vários momentos do Auto da Nau Catarineta, espetáculo do nosso teatro popular, os personagens Ração e Vassoura utilizam-se o tempo todo de cenas de pancadaria e de gestos associados ao baixo corporal e material, apresentam-se demasiadamente enérgicos, grosseiros e brigões. Aliás, a referida expressão "baixo corporal e material" utilizada por Bakhtin em sua obra clássica A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais reflete claramente o espírito cômico da Idade Média e do Renascimento, que se manifestava de forma muito mais espetacular do que literária, sendo, portanto diretamente associada ao gesto. Este espírito cômico espetacular, bastante difundido na Idade Média e no Renascimento, também se encontra profundamente arraigado aos espetáculos da Commedia dell'Arte. Lígia Vassalo afirma que a Commedia dell'Arte, "atinge no seu produto final uma dramatização improvisada com personagens fixos, baseada em roteiros ao invés de textos. Ela dá toda a primazia ao gesto e ao visual."[6]