
Às minhas costas, ela. Costela bem servida de carne (de primeira, logo ela, a última), mas também de pêlos, com os quais meus dentes se distraem por horas e, às vezes, se atrapalham e pedem fio dental (ariadne tecendo um caminho sem volta entre a costura sob meu escroto e a linha de sua baba aracnídea), rendendo-se muitas vezes à higiene das pequenas cusparadas. Todavia há também as maçãs que, quando sorriem, pecado é não querer desfrutá-las, e, com um pé nas costas (porque sou hábil nos assuntos hortifrutigranjeiros nos campos da sexualidade feminina), descasco meu sorriso e (exercício frutuoso) mordisco-as com o dente do siso. E o sono, sob a coberta azul-marinho, balança qual ondas preguiçosas e mal posso continuar mirando, já mareado, marinheiro de primeira miragem ante sereno canto, sonar ressoando baixinho, e eu, submarino de telescópio em riste, aponto o ouvido às suas costas, conto o bater das pálpebras dos seus sonhos, estampido de lenços brancos partindo e que zarpam escrevendo, no céu de almirante, mensagens de fumaça: SOS.
O espelho, ímã das ilusões de amor inseminadas em nosso quarto, revela a porta semi-aberta (irmã de suas pernas) e o negrume que ocupa toda a casa para além do quarto iluminado por esse caro abajur cor de carne.
A manhã não vem. Melhor assim. Partir pra sempre demanda tempo, ânsias, artimanhas, cálculos e manhãs de sol (partir na chuva é covardia, confunde as lágrimas).
Ataco-a pelas costas, pela última vez, estocadas rápidas em seu ânus, com o ânimo de quem gera o primeiro filho, e ela, rindo dolorosamente, sacode as costelas que, num dia primevo, acreditei minhas.
Hoje, contudo, um dia após aquele after shave estrangeiro barbarizar minha alegria, dou às costas ao espelho e, aliciado pelo reflexo do sol nos óculos escuros de um humor cego, zarpo no meio da fumaça dos escapamentos e vejo pelo retrovisor os lençóis em despedida no varal da memória.
Paulo de Toledo
Escritor e poeta. Tem trabalhos publicados em sites de literatura e é colaborador da revista de poesia e tradução Babel. Venceu o V Projeto Nascente (USP/Editora Abril), na categoria Poesia (1995) e o I Concurso Binacional de Conto Brasil-México (2001), promovido pela revista Cult e pela Revista Cultural El Ángel, do México.
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