
Não nos interessa discutir o que é ou deixa de ser a poesia marginal. Interessa-nos atravessá-la. Criar movimento em meio ao movimento dela sem buscar qualquer traçado acabado de definição. Assumi-la como uma história nossa. Isso, evidentemente, não significa abandonar, completamente, discursos legitimados por ela ou em torno dela. Ao invés de recriar discussões sobre os valores intrínsecos do rótulo e das possibilidades terminológicas de seu campo semântico (geração mimeógrafo, poesia jovem dos anos setenta, etc.), ou simular uma postura imparcial e desafetada diante dele, optamos por assumi-lo como um discurso já devidamente batizado e funcionalizado. Tal afirmação, por outro lado, parece exigir um exercício de tensão, uma ginástica argumentativa que não nos permite, simplesmente, dar o assunto por encerrado. Até porque, o desafio de tal exercício não nos parece um pedaço de mal caminho em direção ao meio nervoso do que, aqui, buscamos tocar.
Na nossa cultura literária, ninguém afirma o chamado modernismo, o chamado romantismo, o chamado regionalismo dos anos trinta, etc. – o que não significa que todos esses não chamados sejam, necessariamente neutralizados, ou neutralizáveis, em relação aos seus respectivos nomes de batismo. Evidentemente, a palavra marginal possui, para nós, uma identidade muito distinta de palavras como concretismo, ou mesmo modernismo, rótulos consagrados como filhos e/ou pais de personagens políticos que, por bem ou por mal, nunca deixaram de assumi-los. Mário e Oswald nunca deixaram de ser dois caciques cuidadosos com o modernismo, ou modernismos, que conquistaram em afetos e desafetos. Mesmo com todas as autocríticas, contradições, vitórias e frustrações imbricadas em seu processo, o modernismo foi sempre um movimento cujo rótulo atraiu a doação e o acolhimento de voluntariosas assinaturas. De maneira distinta, algo similar podemos perceber em relação à força do rótulo concretismo e sua grande arte de criar históricos amigos e inimigos. A poesia marginal, ao contrário, sempre se alimentou – com seus poetas, críticos e comentadores - de uma constante e reiterada insegurança em relação ao próprio nome.
Curiosa diferença política. E mais curioso ainda é pensar que depois da poesia marginal não houve mais nenhum “pequeno-grande” rótulo na história da poesia brasileira. O rótulo - poesia marginal - é grande por ser irrefutável, mesmo que se queira disfarçá-lo ou desautorizá-lo com um discurso indireto (os famosos “ditos” e “chamados”). Se estamos falando sobre história contemporânea da poesia brasileira, poesia marginal parece não querer dizer outra coisa senão poesia marginal dos anos 70 (sinônimo de geração mimeógrafo, etc.), ainda que isso possa querer dizer muitas coisas, de acordo, claro, com os possíveis interesses discursivos sobre o assunto. Poesia marginal: grande rótulo, sinônimo de “viés geracional” ou “retrato de época” dos anos 70, para lembrar o famoso título de Carlos Alberto Messeder Pereira sobre o assunto. Mas o rótulo, ao lado dessa sua quase dimensão épica, é também pequeno, porque ao contrário dos ismos dos modernos e modernistas, ele quer resistir– ou se quer através dele resistir - ao vigor de um movimento “manifesto” e/ou “orgânico”. Daí talvez essa relação ambígua entre o seu acontecimento e o chamado de seu nome.
A palavra marginal - quando deslocada da história da literatura brasileira contemporânea e vista simplesmente como adjetivo do substantivo poeta - possui, para nós, um gosto clássico de modernidade e romantismo. Marginal é sinônimo de maldito e não raro pode ser lido como um mito que possui o glamour por levar a cabo seu grande e genial destino. O poeta de Edgar Allan Poe, na visão de suas Notas Marginais, é aquele que se distancia da vulgaridade graças a um “discernimento acima do normal”, sendo, em relação ao sentido comum, sempre compreendido como genus irritable: “...uma coisa é certa: que o homem que não é “irritável” (no entendimento comum) não é poeta.”[1] O destino do poeta como Intelecto Maldito não pode ser outro a não ser o da exclusão social. Caminho da corrosão (a “diversão” da ironia) diante de uma sociedade que o exclui e da qual ele quer se excluir sendo “anormalmente forte”, digno do rótulo de amaldiçoado: “...devíamos ignorar todas as biografias dos ‘virtuosos e ilustres', ao mesmo tempo pesquisando cuidadosamente os mínimos registros dos infelizes que morreram na prisão, no hospício ou na forca.” [2] O marginal dos anos 70 é um “outro”. Engajado em um anti-engajamento, faz frente, ou melhor, desdenha de banda tanto o compromisso esquerdofrênico quanto as bandeiras de um vanguardismo experimental advindos nos anos 60.