
Seguindo a amplitude dos clássicos passos de Octavio Paz, afirma-se que enquanto a atitude revolucionária, à sua própria revelia, associa-se à ética protestante do trabalho (a contenção do corpo em nome de um futuro redentor) e reforça a idéia iluminista do progresso histórico, a poesia moderna, insistindo na rebelião do corpo e da imaginação, busca um ritmo marcado por um “presente sem datas”:
A oposição entre o espírito poético e o revolucionário é parte integrante de uma contradição maior: a do tempo linear da modernidade diante do tempo rítmico do poema (...) Abolição do ontem, do hoje e do amanhã nas conjugações e copulações da linguagem. A literatura moderna é uma negação apaixonada da era moderna...[7]
Na cultura poética brasileira dos anos 70, inaugura-se uma nova maneira de lidar com o marginal, vale dizer, uma nova maneira de tensioná-lo, criá-lo, ampliá-lo mais uma vez, em outro campo de conflito:
- ALÔ, É QUAMPA?
- não...é engano.
- alô, é quampa?
- não, é do bar patamar.
- alô, é quampa?
- é ele mesmo. quem tá falando?
- é o foca mota da pesquisa do jota brasil. gostaria de saber suas impressões sobre essa tal poesia marginal.
- ahhh... a poesia. a poesia é magistral. mas marginal pra mim é novidade. você que é bem informado, mi diga: a poesia matou alguém, andou roubando, aplicou cheque frio, jogou alguma bomba no senado?
- que eu saiba não. mas eu acho que é em relação ao conteúdo.
- mas isso não é novidade. desd`adão...ou você acha que alguém perde o paraíso e fica calado. nem o antônio.
- é verdade. mas deve haver algum motivo para chamarem essa poesia de marginal.
- qual, essa!? eu to achando até bem comportada. sem palavrão, sem política, sem atentado à cristantã.
- não. não to falando dessa que se lê aqui. to falando dessa outra que virou moda.

Chacal
- ahhh......... dessa eu não to sabendo. ando meio barro-bosta por isso tenho ficado quieto em casa. rompi meu retiro pra atender esse telefone. e já que ti dei algumas impressões, você vai mi trazer as seguintes ervas pra curar meus dissabores: manacá carobinha jurubeba picão da praia amor do campo malva e salsaparrilha. até foca mota.[8]
Nesse poema, o canônico marginal Chacal ironiza com humor o próprio rótulo que naquele momento (1977) já era consagradíssimo pela cultura acadêmica e midiática. Nenhuma contemplação de “silêncio heróico”, nenhum desejo de “glamour bandido”. Tampouco, nenhum ataque frontal contra o rótulo. Simula-se apenas um desinteresse pela questão. Nenhuma postura séria, mas apenas uma pose malandra diante do estabelecimento da notícia, da moda, da canonização semântica do rótulo. “Trata-se de um movimento literário ou de mais uma moda? E se for moda foi a poesia que entrou na moda ou foram os poetas?” – indagava Heloísa Buarque de Hollanda na introdução a 26 poetas hoje[9], primeira publicação oficial da poesia marginal.