
Na dúvida, desdenhar o rótulo em sua grandeza saturada e consagrada não é ainda buscar, magistralmente, uma posição à margem da norma, agora, ironicamente, chamada marginal? Note-se que o poeta poderia simplesmente não tocar no assunto, mas, ao contrário, faz questão de não deixar calar a inquietação geral: “deve haver algum motivo para chamarem essa poesia de marginal.” Cria-se então um outro cânone, alternativo, mas não oposto, ao marginal presente no conflito clássico da modernidade rearticulado nos anos 60. Se o poeta experimental típico da modernidade buscava um ritmo de linguagem/vida próprio e propício para sair da linha – rebeldia em oposição ao messianismo do intelectual engajado -, o intelectual-poeta da década de 70, embora não negue a poesia, nega que é intelectual. Ao contrário dos modernos que assumem exaustivamente a modernidade como um problema a ser pensado, o poeta marginal quer nos fazer pensar que não está pensando em coisa nenhuma, muito menos sobre o próprio rótulo.
Chacal, poeta marginal por excelência, é um jogador que quer brincar com a bola. Como não se pode driblar sozinho, Foca Mota é o discurso da moda que deve ser driblado, mas não ignorado, ainda que o drible, malandro e cara de pau, saia pela tangente ou pela culatra: “ahhh......... dessa eu não to sabendo. ando meio barro-bosta por isso tenho ficado quieto em casa. rompi meu retiro pra atender esse telefone...”
Sem saber sabendo, a bola foi parar na geral e rola de improviso no pé da galera. Quem é o dono da bola? - pergunta o repórter (Foca Mota?). A bola não tem paternidade definida, só desconfiada. Pode-se, aproveitando o embalo do jogo oficial interrompido, tentar mais um chute na loteria oficiosa: Quem é o filho da bola? Seria ele um simples personagem que matou o édipo e foi ao cinema só querendo saber do que pode dar certo? Se a bola é o nosso pequeno grande rótulo, o filme não é fácil de ser parafraseado...
Mais de vinte anos depois, em um texto lido na UFF (Seminário Mais poesia hoje), Chacal assumia, desta vez sem drible, mas com humor, a filiação e dava nome à responsável pelos boys: “Entre 75 e 79, a poesia buliu com a vidinha no planeta Rio. Era verso pra todo lado. Heloísa dava nome aos boys: poetas marginais...”.[10] Mas sobre essa história pode haver controvérsias. Tanto Heloísa Buarque de Hollanda quanto Carlos Alberto Messeder Pereira, os primeiros grandes legitimadores acadêmicos e editoriais da poesia marginal, não se posicionaram, na época, diante do impasse, ou seja, de maneira análoga a de Chacal, porém menos engenhosa, tiraram o corpo fora e chamaram o discurso indireto. Das introduções a 26 poetas hoje e a Retrato de época podemos extrair os seguintes fragmentos:
...Parte significatica da chamada produção marginal já mostra aspectos de diluição e modismo...
...achei mais justo não me restringir apenas à chamada poesia marginal[11]
O objetivo mais imediato deste trabalho é a análise e discussão de um tipo de produção poética que, ao longo dos anos 70, ficou sendo conhecido como “poesia marginal”...
...É nesse contexto que surge, ainda em 1976, a antologia 26 poetas hoje (...) Embora a antologia não se definisse como uma antologia de “poesia marginal” – rótulo aliás bastante discutível – (...) um grande número de produções e produtores que estavam sendo definidos como “marginal” estavam presentes...[12] (grifos nossos)
Mas quem são afinal os poetas marginais? Essa é outra pergunta que não precisa ser calada e que tampouco pode ser respondida categoricamente. Muitos críticos (como, por exemplo, os próprios Messeder em Retrato de Época e Heloísa Buarque em Impressões de viagem) procuram restringir a poesia marginal às tribos do circuito carioca (Frenesi, Vida de Artista, Nuvem Cigana, etc.). Outras análises e publicações já identificam autores atuantes em diversas regiões, como a tese de Wilberth Salgueiro, o livro didático de Samira Campedelli e a antologia 26 poetas hoje, que citam autores como Leminski e Alice Ruiz (Curitiba), Nicolas Behr (Brasília), Roberto Piva (São Paulo) e Carlos Ávila (Belo Horizonte). Discutem-se também, entre os muitos citados do boom, quais são os exemplos típicos e atípicos de um comportamento marginal. Um exemplo clássico do primeiro caso pode ser Chacal, do segundo pode ser Ana Cristina César que, em geral, é destacada como uma poeta marginal “especial”[13].