

Paulo Leminski
Até hoje mal assumidos e dignos de desconfiança, mas ao mesmo tempo canonizados, o rótulo e os rotulados (ou meio rotulados, conforme interesses e estratégias de ocasião) conquistaram espaços, penetraram histórias e foram penetrados por elas. Contudo, parece que estão sempre a escapar... Não nos interessa conferir uma essência para a poesia ou para o poeta marginal. Interessa-nos assumir o assunto como uma possibilidade de travessia sem aspas, pois se ele traz problemas de vazamento, seu nome, ou apelido, já não necessita ser mudado. Procurar nele ou para ele alguma suposta estabilidade filológica parece ser um caso perdido e inútil, desde o princípio. Aliás, é essa sensação de perda que nos interessa explorar.
Vejamos o discurso mea culpa de Heloísa Buarque em relação ao seu contraditório e inevitável papel de oficializadora daquilo que, em princípio, e somente em princípio, poderia ser compreendido como alternativo:
...vejo o meu trabalho de organização desse material na antologia 26 Poetas Hoje como bom e mau. Bom, na medida em que divulgou essa produção nas esferas de legitimação institucional, promovendo violentas polêmicas e questionamentos e, portanto, aumentando o circuito desse debate. Mau, entretanto, porque assim “apropriados” num volume “limpo” de editora espanhola e sob o aval e atenção de uma professora universitária, promove, de alguma maneira, alterações fundamentais na forma e no conteúdo dessa mesma produção, diminuindo a força contestatória de sua intervenção crítica.[14]
Entre o “bom” e o “mau”, floresce o dramalhão. A sensação que temos é a de que estamos diante de uma mãe adotiva e coruja que não sabe como assumir e educar os filhos que apanhou na rua (os “chamados” marginais). Se ela os leva à escola, estará corrompendo seus alternativos instintos pueris. Se não os leva, estará condenando os próprios filhos à exclusão do câmbio oficial de troca e venda de polêmicas. Não seria um crime excluir os filhos dos exames clínicos “normais”? Nós, com alguma certeza, assinamos em baixo das seguintes palavras de Wilberth: “...Prefiro, no entanto, a banda boa: o documento alimenta a memória e tem efeito disseminador (mais que homogeneizador)”.[15]
Tendo optado por ingressar com as crianças de rua na escola, passa-se a uma outra questão: em que turma elas vão estudar? Essa é uma questão séria para uma mãe adotiva e melindrosa que, para intensificar ainda mais o drama, trabalha na escola. E como enfrentar a escola, uma escola de literatura, constatando que
...A marginalidade deste grupo não é mais literária, mas revela-se como uma marginalidade vivida e sentida de maneira imediata frente à ordem do cotidiano. E a respeito da significação mais ampla dessa marginalidade é importante observar que as discussões que se travam, em torno da questão de ser ou não ser “literatura” o que produzem, não têm, pelo menos até agora, incomodado os autores...[16]
Tendo em vista o suposto desleixo dos boys, muita gente boa apareceu para dar uma força ao problema, adotando ou não os meninos. Em 1975, portanto um ano antes do lançamento da famosa antologia, o professor e crítico de literatura Silviano Santiago já metia uma entusiasmada colher no assunto, advertindo que o “grupo de Chacal” era, “descuidadosamente”, “assassino” dos livros e, portanto, incompatível com a sisudez silenciosa da biblioteca:
...em Chacal, encontramos o descuido como marca; texto pouco asseado e contraditório. Texto de vocabulário e sintaxe coloquiais (...) o descuido pelo valor cultural institucionalizado é um dado importante dentro do grupo de Chacal, pois acreditam que se possa desvincular, não só o seu projeto existencial de um compromisso com a “ordem” na sociedade, como também o projeto literário de um envolvimento com as formas “bibliotecáveis” de literatura...[17]
Um parêntesis: Chacal e sua turma de meninos malandros convenceram as instituições de que eles, os magistrais, eram poetas, mas não eram intelectuais? Mas se realmente houve tal convencimento, ele não foi feito a partir de um belo drible intelectual? Por outro lado, as instituições, naquele momento, cansadas de tantos escolismos da moda acadêmica (estruturalismos, marxismos e subafluências), não necessitavam, de qualquer maneira, mudar o ar da casa e criar a “lixeratura”, a “diarréia poética” e os “palavrões” daqueles “sórdidos”[18] meninos mal comportados?