Ana Cristina César

Continuemos a fábula. Se a questão “ser ou não ser literatura” perturbava, para o bem ou para o mal, os professores de literatura, ela poderia realizar um casamento tranqüilo com a antropologia. Afinal o meio caminho entre a rua e a escola exigia uma pesquisa de campo. Foi aí que apareceu o brilhantismo de Carlos Alberto Messeder Pereia, interessado em uma grande angular do momento. O grande e épico retrato bíblico começou a ser montado: “...A literatura me interessava, não enquanto fenômeno especificamente literário, mas sim enquanto uma determinada faceta do fenômeno cultural...”[19]

Claro que a grande angular de Messeder caía como uma luva para os interesses daqueles poetas que pretendiam, magistralmente, provocar a literatura. Em um texto dos anos 90, Silviano chamou a atenção para o fato de que a “ousadia metodológica” do antropólogo foi análoga a uma “ousadia geracional”[20], ou seja, os próprios poetas marginais dos anos 70 forneciam, de certa forma, os subsídios metodológicos adotados pelo antropólogo, na medida em que entendiam o poema como algo inalienável da vida cultural e do cotidiano de sua produção/circulação:

...em nenhum momento, eu tentei responder de modo absoluto à questão:  o que é a literatura? ou mesmo, o que é a poesia? (no meu caso específico). Do meu ponto de vista, as possíveis respostas a estas questões eram essencialmente relativas e me remetiam a um debate no qual se situavam tanto os produtores quanto a produção que eu analisava. Esta tarefa de definição da poesia ou mesmo da literatura cabia, portanto, aos meus informantes. Quanto a mim, meu papel era o de registrar estas mesmas definições e dar conta de suas diferenças...[21]

Essa relativização do “literário” nos encaminha para observar  a evidência de que, nas últimas três décadas, grande parte dos discursos críticos e/ou historiográficos que vêm sendo produzidos em relação à poesia marginal, apesar de heterogêneos e divergentes em muitos aspectos, parecem partir de um ponto de vista comum: a idéia de que na poesia marginal há uma fusão entre arte e vida. Podemos encontrar esse ponto de vista em críticos oriundos das mais variadas correntes do pensamento contemporâneo: Heloísa Buarque de Hollanda, Benedito Nunes, Flora Süssekind, Iumna Simon, Vinicius Dantas, Costa Lima, Messeder Pereira, Wilberth Salgueiro e outros.


Cacaso

Tal moldura classificatória não foi algo que se processou à revelia da postura poética dos próprios poetas marginais. Ao contrário, estes muitas vezes manifestaram uma crença na possibilidade do “eu que vive” se sobrepor ao “eu que escreve”, tal como queria o poeta marginal Cacaso em “Na Corda Bamba” (1978).

É a partir desse pressuposto (arte = vida) que a poesia marginal passa a ser vista como uma poesia expressiva, ou seja, como uma literatura - ou “antiliteratura”, conforme o vértice que se queira - cuja linguagem estabelece uma relação direta com a realidade corporal-existencial vivida pelo escritor. A expressão, nesse caso, marcaria, tanto a especificidade, como a oposição, da postura poética marginal em relação a posturas poéticas anteriores (principalmente o “antilirismo” cabralino e o “cerebralismo concretista”), consideradas construtivas, isto é, entendidas como procedimentos poéticos voltados para a exploração racional e objetiva da própria linguagem e, ao mesmo tempo, afastados da realidade imediata vivida pelo corpo do poeta.

Dentro dessa perspectiva, a poesia marginal seria uma “poesia da paixão”, capaz de criar uma aproximação entre a vida do poeta e a vida do leitor. A poesia concreta, por outro lado, seria uma “poesia da razão” que, ao invés de criar uma aproximação, cria um distanciamento entre poeta, texto e leitor. Tal quadro dicotômico acaba por criar uma extensão semântica que se desdobra em outros pares: ingenuidade/crítica, loucura/lucidez, espontaneidade/controle, rigor/gratuidade, etc.

Enfatizando a “vida” em detrimento da “escrita”, os poetas marginais pareciam ter um desejo de realizar um “texto sem linguagem”, ou, ao menos, uma poesia cujo efeito fosse o “...de que o poema não foi feito, tamanha sua proximidade e identificação com a experiência viva do leitor”, como dizia Cacaso ao comentar o livro Creme da Lua (1975) do poeta “marginal” Charles. A idéia do poema “que não foi feito” não é outra senão a idéia do poema “que não foi construído” e que, portanto, é fruto da expressão vital do poeta.