
Mas não seria a suposta expressão da poesia marginal uma construção? Uma construção regulada e legitimada por determinada comunidade de escritores, críticos e leitores? Uma construção paradoxalmente movida pelo desejo de desconstruir a própria construção? Por outro lado, não seria também possível pensar que o distanciamento proposto pela poesia concreta é, à revelia do desejo controlador dos próprios concretistas, constituído por uma força expressiva? Não seria possível pensar que determinado leitor estabelece uma relação de paixão com o universo da poesia concreta? As várias polêmicas já ocorridas em torno do suposto racionalismo da poesia concreta não poderiam ser vistas como atitudes movidas pela paixão? Até que ponto poderíamos estabelecer os limites claros entre construção e expressão? Em última instância, até que ponto poderíamos estabelecer limites seguros entre o universo da razão e o universo da paixão?
Seria por demais implausível admitir que o binômio expressão/construção possa existir em e por si mesmo. Ele pode ser entendido apenas como um efeito, e não como uma essência, porque nenhum leitor – seja ele um “crítico”, ou não – tem acesso suficiente à “verdade” empírica do “eu que escreve” para saber se determinado escritor está sendo mais expressivo - mais “ligado à vida” – do que algum outro supostamente mais construtivo. As noções de expressão e construção não são capazes de representar uma realidade estática e totalizadora de determinado processo de escrita, pois constituem pactos flutuantes sujeitos a variações histórico-interpretativas. Sendo encaradas como pactos e não como essências, tais categorias são passíveis de rasuras, ou seja, estão sujeitas a constantes questionamentos, negociações e renegociações.
Estamos chamando de pacto a maneira pela qual determinada poética se legitima e é legitimada, seja enquanto expressiva, seja enquanto construtiva. O processo de tal legitimação, visto tanto em sua espessura sincrônica como diacrônica, comporta uma série de elementos políticos e estéticos que se estruturam mutuamente: o texto, a voz do "autor" diante do texto, a leitura da crítica, o tecido cultural no qual se processam o discurso do e sobre o texto, etc. De acordo com essa idéia de pacto, podemos afirmar que a hipótese de nosso trabalho, não apenas abre espaço para rasurar as noções de expressão e construção, como também nos leva a questionar, por exemplo, o valor atual do grande retrado expressivo da poesia marginal, diante das variações que a negociação de tal pacto vem sofrendo nos últimos anos.

Alice Ruiz
Se nos anos 70, a suposta expressão “antiliterária” da poesia marginal era entendida como um fenômeno distante das “formas bibliotecáveis de literatura” – tendo sido, por isso mesmo, lida muito mais através de “impressões” ou “retratos” da cultura dos anos 70 como um todo, e muito menos como uma linguagem digna de uma análise propriamente “poética” -, hoje, essa expressão “antiliterária”, ainda atribuída à poesia marginal, já está intensamente incorporada às intituições literárias “tradicionais” (editoras, bibliotecas, teses acadêmicas, seminários de poesia, etc.). Temos então um paradoxo: para um “jovem” leitor do século XXI, a memória do binômio arte/vida atribuída à poesia expressiva dos marginais – memória figurada na imagem do poeta tecendo um “corpo a corpo” com a vida do leitor – só lhe é acessível através de uma “experiência de leitura”. Dessa forma, o que era tido como “memória vivida” não pode resistir à constituição de uma “memória lida”.
Atravessando as margens rasuradas do grande retrado expressivo da poesia marginal, chegamos a um outro problema, o da intenção autoral, tema que ultrapassa o universo estrito da poesia marginal, embora em seu pacto expressivo marque, por razões óbvias, uma presença crucial. Seria imobilizador e teoricamente pouco rentável, se considerássemos a intenção apenas como fruto de uma história da leitura, embora esta seja fundamental ao processo de legitimação daquela. O problema reside em aceitar que, como afirmou Compagnon, “...Do outro lado da intenção do autor há, na verdade, a intenção...”[22]. E como controlar essa intenção? Como saber exatamente os seus limites? Essas indagações nos parecem impotentes, pois nos levariam a um recuo infinito. Mas há um outro movimento que poderá nos fazer potente: para que definir e dominar os limites da intenção? Em outras palavras, pegando carona em um famoso poema de Carlito Azevedo, para que tentar abolir a existência da “Inspiração” (“estalo”) ?
Da Inspiração
Desconfiar do estalo
antes de utilizá-lo
mas sendo impossível
de todo aboli-lo
desconfiar do estalo
dar ao estalo estilo[23]