
Desconfiar do estalo antes de utilizá-lo parece algo saudável, aliás, uma boa receita para rasurar a sempre cômica e totalitária pretensão de um “ego todo poderoso” (o mito do puro gênio inspirado), tão comum, não só entre poetas, como também entre críticos literários. Desconfiar, aliás, é sempre saudável, desde que tal desconfiança estimule a nossa capacidade de criar e não as nossas impossibilidades: pânico total, renúncia, suicídio diante da camisa de força do opressor.
Mas se desconfiar do estalo nos parece saudável, há um outro movimento no texto de Carlito que nos incomoda. Trata-se da segunda estrofe na qual lamenta-se – através da adversativa “mas” - a impossibilidade de abolir “todo” o estalo. Não é justamente aí, nas surpresas das possíveis brechas de uma real e sentida espontaneidade, que nosso texto pode ganhar uma vida capaz de remover a pretensa exclusividade de nossa auto-expressão? Não é o descontrole do estalo – não o estalo absoluto - que nos permite ganhar liberdade em relação às nossas egocêntricas e neuróticas boas ou más intenções todo-poderosas? Não é esse descontrole que pode nos afastar dos domínios estritos da literatura (os modelos de papai e mamãe) e agenciar (“em intenção de”) um saudável “delírio coletivo.[24]?
Poderíamos pensar ainda – mas não estamos pensando - que - no fundo, no fundo – nada é espontâneo. Nesse sentido, cabe lembrar aqui uma fala interessante de Alfredo Bosi sobre a poesia dos anos setenta em um encontro entre críticos e poetas realizado em 1981 na Unicamp. Tal fala nos interessa – e na mesma medida nos incomoda - porque articula uma dupla compreensão da poesia dos anos 70. Ao mesmo tempo em que a legitima como uma poesia antiliterária, devido ao seu caráter "exclusivamente expressivo", questiona, por outro lado, a possibilidade de uma poesia completamente desconstruída:
Existe uma poesia muito rente aos acontecimentos que á a que se está fazendo agora, a partir principalmente de 70. É uma poesia de um coloquialismo realmente imediato, que se deseja antiliterária, traço que considero dos mais fortes nela. (...) há o momento em que se esquece da poesia como construção e ela se transforma, exclusivamente, em expressão. Expressar é dizer, dizer é viver, e não há mais mediações construtivas. (...) No mundo todo há uma necessidade de a pessoa se negar à elaboração. Então, poderíamos perguntar, alcançando agora o vôo a um juízo crítico: será que é assim mesmo? Será, realmente, que o inconsciente que é, vamos dizer, a fonte sagrada de tudo isso não vive na constante elaboração?[25]
Mas não é triste pensarmos que estamos condenados à escravidão de uma constante elaboração? E, mais triste ainda, não é estar preso ao desejo onipotente de “...um fundo obscuro que Freud tanto explora?...”[26]. Mais alegre é pensarmos no desejo da espontaneidade como algo possível em um “consistente” “corpo sem orgãos” (a desarticulação de Artaud atravessada por Deleuze e Guattari). Um “CsO” capaz de liberar o desejo de sua “maldição”, uma maldição que o submete a uma negatividade e a uma dependência constante de um “ideal transcendente” que lhe é “extrínseco” e, portanto, sempre lhe será faltante[27]:

Roberto Piva
Naveguemos agora a um indispensável e necessário óbvio ululante: a crítica que rechaça e denuncia os poderes da auto-expressão e, ao mesmo tempo, endossa com fervor o construtivismo - fundado ou não em uma tradição formalista – acaba acreditando – sem outra saída - nos poderes autoritários da intenção. Ora, querer abolir “todo” o estalo em nome da boa literatura (o controle do estilo) não é o mesmo que querer controlar “todo” o texto com um “ego todo poderoso”? Podemos enxergar esse processo, por exemplo, no caso do acordo que grande parte da nossa tradição crítica realizou com os desejos fundantes da poesia concreta.
Quando a crítica – seja ela amiga ou inimiga política da poesia concreta - afirma o mito construtivo do cerebralismo concretista, ela não está fazendo outra coisa senão co-afirmar (confirmar) – com ou sem controle de suas intenções - os desejos de super-controle expressivo do ego coletivo dos concretistas. Só um ego todo poderoso seria capaz de se superar e se controlar a ponto de realmente expurgar do processo de composição “a interpretação de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas” em nome da criação de “problemas exatos” para a linguagem. Mas alguém – com a atenção voltada para as potências periféricas do óbvio – seria capaz de acreditar que os poemas concretos, mesmo aqueles da fase heróica, foram realmente compostos sem um pingo de subjetivação hedonista? Só rindo poderíamos responder que sim.