Nicolas Behr

Olhando hoje para o grande “poemão” marginal dos anos 70, para além de um preconceito moral e dualista entre alta e baixa literatura – ou entre pura expressão e pura construção - o que podemos apreender de vivo em seu mito de espontaneidade? Já que esse mito existe, o que podemos fazer com ele?

Tal indagação não se encaminha no sentido de uma defesa da poesia marginal, até porque esta não é definível – e muito menos defensável - em seu todo. Ela não possui um todo, está sempre sendo mal “chamada”... O interessante é perceber as possibilidades de suas potências. Assumi-la pelo caminho selecionado de seus fragmentos mais vivos - pois há poemas marginais que, para nós, não tem graça nenhuma. Percebê-la, em seu mito de espontaneidade, não como uma construção total e muito menos como uma expressão absoluta de um “ego todo poderoso” capaz de fazer poesia com seu “toque de Midas” [28], senão como uma postura que não perde o charme do estalo, assumindo a força de um acaso em construção. Um descontrole que deve ser visto em movimento, como um espectro distribuidor de vida, e não como uma assombração fantasiosa (irrealizável). Eis a potência vital do espontâneo:

Vi ontem na tv o “three seconds to hell” do aldrich
é a história de um grupo de desmontadores de bomba
na alemanha do após guerra
um erro mínimo e a bomba PUM ! na cara do desmontador
escrever poemas é assim
um erro e o poema explode na tua cara[29]


André Monteiro
Licenciado em Letras pela UFJF e Doutor em Literatura Brasileira pela PUC-RIO. É Professor Visitante junto ao Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou, entre outros: A ruptura do escorpião – ensaio sobre Torquato neto e o mito de marginalidade (2000) e Ossos do Ócio, poesias reunidas (2001), ambos pela editora Cone Sul.
duidimonteiro@hotmail.com

Notas:    

[1] POE, Edgar Allan. Poe desconhecido. São Paulo: LP&M, 1980, p.50.

[2] Idem, p. 66

[3] BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1980, p.15.

[4] Cf FAVARETO, Celso. A invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992, p.130.

[5] SALOMÃO, Waly. Hélio Oiticica: Qual é o parangolé? Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996, p.67.

[6] Cf: PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p.196.

[7] Idem, p.196.

[8] Apud HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem - CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. São Paulo: Brasiliense, 1981, p.98.

[9] HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976, p. 9.

[10] CHACAL, “Paisagens urbanas”. In : CÉLIA, Pedrosa (org). Mais poesia hoje. Rio de Janeiro: Sette Letras, 2000, p. 52.

[11] HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976, p. 10-11.

[12] PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época. Rio de Janeiro: Funarte, 1981, p.9; 15.

[13] Cf HOLLANDA, Heloísa Buarque de. In : CESAR, Ana Cristina. Correspondência Incompleta. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999, p.299-300.

[14]HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem - CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. São Paulo: Brasiliense, 1981, p.99-100.

[15] SALGUEIRO, Wilberth Clayton F. Forças e formas – aspectos da poesia brasileira contemporânea (dos anos 70 aos 90).Tese de doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996, p.24.

[16] HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem - CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. São Paulo: Brasiliense, 1981, p.101-102.

[17] SANTIAGO, Silviano. “O assassinato de Mallarmé”. In: Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p.192-193.

[18] SANT`ANNA, Affonso Romano de. “Os Sórdidos”. In: Revista Veja, 7 de julho de 1976, p.127.

[19] PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época. Rio de Janeiro: Funarte, 1981, p.12.

[20] SANTIAGO, Silviano. “Democratização no Brasil - 1979-1980 (cultura x arte)”. In :ANTELO, Raul et al (org.). Declínio da arte ascensão da cultura. Florianópolis: Letras contemporâneas; Abralic, 1998, p.11-23.

[21] PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época. Rio de Janeiro: Funarte, 1981, p.13.

[22] COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonde: Ed. UFMG, 2001, p.52.

[23] AZEVEDO, Carlito. Collapsus Linguae. Rio de Janeiro: Lynx, 1991.

[24] Cf DELEUZE, Gilles. “Literatura e vida”. In : Crítica e clínica. São Paulo: Ed. 34, p, 1997, p.15-16.

[25] In : SIMON, Iumna Maria, WALDMAN, Berta (org.). Rebate de pares. Campinas: Unicamp. 1981, p.48. (Coleção Remate de Males 2), p.78-78.

[26] Idem, p.78.

[27] Cf: DELEUZE, Gilles, GUATTARI. Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia, (vol.3). Rio de Janeiro: Editora 34, 1996, p.15.

[28] Cf: SÜSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[29] LEMINSKI, Paulo; BONVICINO, Régis. Envie meu dicionário – cartas e alguma crítica. São Paulo: Ed. 34, 1999, p. 138.