

O relançamento de O Livro de Zenóbia (Lamparina Editora, 2004) na última Feira do Livro em Belo Horizonte, de autoria de Maria Esther Maciel, com ilustrações florais de Elvira Vigna e apresentação em três atos de Nelson de Oliveira, significa a celebração da voz humanista que existe dentro de cada um de nós. No panteão dos deuses e deusas, uma Ninfa criativa ordenando o caos em suas breves listas. Embalada por Zéfiro, em suas estórias e memória prodigiosa, transportam os leitores para o reino da imaginação, digno de um embate sem igual contra qualquer tipo de Quimera.
Coexistem em suas 160 páginas hibridismos da melhor espécie. Reflexões críticas, prosas poéticas, ficção, pequenos ensaios do cotidiano, influenciados pela narrativa lírica da autora. Escritos de maneira carinhosa, irônica, sutil e original, tornando a leitura prazerosa sem início ou fim. Pois, pode-se começar ou recomeçar o livro a partir de qualquer página.
Os conjuntos de textos revelam as idades, encontros e desencontros, a família, as amigas, as horas felizes, os cadernos, os contos, as palavras prediletas e os livros de cabeceira de Zenóbia. Uma personagem, ou uma figura nos dizeres de Lúcia Castello Branco, condensação de todos os nomes e coisas; singular, raro e sonoro: Zenóbia.

Maria Esther Maciel: experiência
radical de invenção e criação
Nascida e criada na região do Alto Paranaíba, Patos de Minas, Maria Esther Maciel, revela que existem algumas Zenóbias longevas na família. Foi a partir deste universo mineiro, onde ainda se tem tempo para saborear uma torta de abóbora com canela e gengibre, e o chão com raízes firmes, que a autora reverencia e faz brotar em meio às orquídeas e bromélias os traços, reminiscências, imagens e fragmentos, num ritmo esgarçado, as epifanias, assombros e iluminações da personagem, conservando com lucidez uma decomposição-recomposição da estética na linguagem num ritmo não linear, desvencilhado da metalinguagem e da intertextualidade, abrindo-se a uma experiência mais radical de criação e invenção. Onde a delicadeza e a sutileza do dia a dia em suas inquietações propiciam o renascimento de um pacto saudável com a ficção, avessos aos formalismos e realismos em excessos, tão presentes na literatura brasileira da atualidade.
A ênfase do livro está na criatividade, imaginações e iluminações da personagem. Que sente em seus poros as sinestesias agradáveis, como também o seu oposto: o desprazer em apontar as aves em extinção. Revelando preocupações trágicas, exploradas nas sonoridades das palavras em suas listas. Por sinal é encantador a leitura em voz alta das listas de Zenóbia. Com requinte e olhares metafísicos, a humanidade ganha em razão e sensibilidade nos vôos plenos desta Ninfa chamada Zenóbia. Literatura inteligente e da melhor qualidade, indispensável para todos os internautas, estudantes, professores, poetas, cronistas, contistas, romancistas e jornalistas, O Livro de Zenóbia é um poderoso antídoto contra a truculência do mundo e da realidade. Uma pétala colorida e sadia que se lê “com o prazer com quem alimenta um pássaro”.
José Aloise Bahia é jornalista, ensaísta, escritor e poeta. Graduado em comunicação social e pós-graduado em jornalismo contemporâneo.
josealoise@aol.com