
foto: Lenise Pinheiro

Lígia Cortez e Marcelo Lazzaratto
em cena
Há tempos no teatro o texto vem sendo escamoteado, barateado, deixado de lado em nome de experimentalismos vazios e sem fundamento. Muitos crêem que a cena contemporânea prescinde do texto. A verdade é que muita besteira tem sido feita por conta de pretensas inovações e de uma “modernidade” fajuta e estéril.
A Entrevista, de Samir Yazbek, com direção de Marcelo Lazzaratto, aponta justamente para o caminho oposto.
Yazbek , que já teve encenadas peças como O Fingidor , A Terra Prometida , O Regulamento e A Máscara do Imperador , traz para o palco a força da palavra num texto elaborado e intenso. Uma jovem e bem sucedida escritora, interpretada pela ótima Lígia Cortez, é entrevistada num programa de televisão. O que era pra ser um debate sobre literatura se transforma em acerto de contas, já que o apresentador, vivido por Marcelo Lazzaratto - de quem só se ouve a voz -, é seu ex-marido. O dramaturgo trabalha a questão do encontro através da dicotomia, as relações entrevistado/entrevistador, artista/espectador, marido/esposa, homem/mulher, público/privado, são trazidas à tona num diálogo que mistura o trivial com o filosófico.
É de se destacar a atuação contida e interiorizada de Lígia Cortez, que permanece no palco, grande parte da peça, quase num monólogo, apenas no final Marcelo Lazzaratto entra em cena num interessante jogo de aproximação e diluição da já mencionada dicotomia. Notável o domínio e concentração da atriz, sua força de interpretação realça ainda mais o poder do texto.
A direção segura, coesa e discreta de Lazzaratto acerta no tom, a impressão que se tem é que não sobra nem falta nada. A cenografia simples e funcional de Ulisses Cohn (no palco apenas uma mesa e uma cadeira) reforça a idéia de que teatro não se faz necessariamente com grandes aparatos e parafernálias. A Entrevista surpreende, sobretudo, pelo retorno ao essencial, tanto do fazer teatral - na relação texto, ator, espectador -, quanto da humanidade.
Mesmo num mundo globalizado, marcado por guerras high tech, interesses financeiros, apartheid social, cultura de entretenimento, altas tecnologias, ainda assim haverá pessoas que se dirijam a uma pequena sala escura para assistir ao diálogo entre dois seres humanos.
Sandro Eduardo Saraiva
Editor da revista Etcetera e do e-zine [sub].
sandro@revistaetcetera.com.br