
São seis horas e venta muito aqui à tarde.
Ele, este pronome reto com cheiro de perfume barato, se mexe com dificuldade dentro de um armazém qualquer, às tantas horas de um dia qualquer, indefinido em qualquer um e nada mais.
Ele, este pronome reto em terceira pessoa, esta entidade que veste roupas adquiridas em liquidações de lojas de departamento, sabe que vai ter que sair daquele armazém ou daquela quitanda mais cedo ou mais tarde. Sabe ou tem a consciência de que não quer falar com ninguém. Não quer simplesmente trocar uma ou mais palavras com quem quer que seja.
Há uma tal porta dos fundos na quitanda .Esta tal porta é agora a sua tábua de salvação. Ele está estrangulado em si mesmo e pretende sair por ali.
A imagem dos sacos de batata à sua frente pendendo para um lado e para o outro.
Ele está agora sentado sobre eles. Gosta do cheiro das frutas frescas e vegetais coloridos.
Gosta do chão aparentemente sujo quando limpo. A quitanda ou o armazém. Não sabe bem como chamar aquele lugar. Um bando de artigos indefinidos em uns, prefere chamar aquele lugar de x. Um outro bando de artigos indefinidos em uns, prefere também chamar aquele lugar de y.
Ele, este pronome reto em terceira pessoa, observa um roedor que está a fuçar os cantos dos cantos dos cantos daquele lugar ou local. O roedor passa por sobre seus sapatos.
Ele tem a impressão de que o mesmo está prestes a escalar suas pernas. Pensa em atacar o referido, mas logo muda de idéia e finge indiferença. A coisa dá certo e o roedor o deixa em paz.
Ele agora se mexe no interior daquele espaço exíguo. As paredes caiadas e tristes o transportam para um tempo qualquer de sua existência. Um feixe de imagens fraturadas se abre à sua frente. Ele se vê perambulando por ruas escuras à procura de si mesmo com as mãos no bolso num dia chuvoso e sem maiores prerrogativas. Acende um cigarro embaixo de uma marquise. Olha ao redor e percebe que está só. O barulho da chuva de encontro ao asfalto instaura uma agradável sinfonia em sua alma. Harmônico e constante, passa um bom tempo ali naquele resto de mundo na esquina de uma rua com a outra.
Faz muito frio naquele instante e seu corpo treme. Do outro lado da rua percebe o brilho encantadoramente artificial das luzes de uma loja de conveniência. O cheiro de junk food invade suas narinas acostumadas a leveza da alimentação caseira. Este choque faz com que ele sinta uma espécie qualquer de azia. Algum pronome indefinido, alguém vindo de não sei onde, esbarra em seu ombro fazendo com que seu maço de cigarros caia no chão e seja literalmente tragado pelas águas impiedosas.
Ele olha para aquele pronome com irritação. O referido pede desculpas e percebe que ele está a bloquear sua passagem. Ele e alguém frente a frente no escuro.
Mais escuro agora que já passa das seis naquele espaço sufocante. Ele, este pronome reto com cheiro de mortadela vencida, a olhar para as paredes que perdem a sua materialidade ao se tornarem substantivos comuns. Tem a nítida e naturalmente obscura sensação de que as mesmas estão a se fechar sobre seu corpo.
Ele, este pronome reto com cheiro de mortadela vencida, agora se movimenta em direção à porta dos fundos.
Ele sabe muito bem que vai ter que passar por debaixo do balcão para alcançar a tal porta dos fundos. Sabe que vai ter que pedir licença ao dono do referido estabelecimento para poder sair por ali. Sabe que vai ter que olhar para a cara de alguns indivíduos que costumam se aboletar ao lado do balcão. Sabe que a ordem é esta. Sabe que não pode sair pela frente. Há muito mais pessoas lá. Seria fatalmente parado por mais de um freqüentador daquele local. Ele ou mais pronomes o fariam perguntas e ele, nosso pronome reto em terceira pessoa, não teria como não responder a todos.
Ele então faz o que tem que fazer e não faz o que tem que fazer. Dá um passo na direção do balcão e pára. Olha para o dono que parece que o entende bem. Percebe subitamente o rasgo na sua camisa, bem abaixo da axila direita. Suas calças se insurgem contra ele dificultando os seus movimentos. Ele se esforça e supera estes pequenos, mas irritantes contratempos. Está próximo ao balcão e vai passar de forma decidida não falando com ninguém.
Os pronomes indefinidos parecem não notar a sua presença, pois ninguém lhe dirigiu sequer a palavra. Ele, nosso pronome reto em terceira conjugação, se dirige para a porta dos fundos. Em alguns segundos, se vê fora dali.
A rua sem saída a partir da porta dos fundos na quitanda.
Ouro pichado com dizeres obscenos, os latões de lixo espalhados naquele antro sombrio. Ele agora se senta sobre um amontoado de pneus velhos e observa o que resta ao seu redor. Um carro desmanchado, uma bicicleta fora de uso, volantes de coletivos atirados ao chão, a urina de cães hidrófobos abandonados pelo tempo, jornais velhos, latas de refrigerantes amassadas e restos de comida de refinada dos restaurantes nas proximidades.
A rua sem saída e do outro lado obras de manutenção. Acesso proibido para pedestres e veículos.
Ele, este pronome reto em terceira pessoa, sentado sobre aquele amontoado de pneus gastos a olhar de um lado para o outro. Emparedado. Encurralado na esfera do que não pode ser. Um frio corre sua espinha. Depois deste frio, uma sensação de mal-estar, algo entre dor no peito e pontada no estômago. Os órgãos de seu corpo estrebucham em silêncio.Um intruso na esfera dos objetos inanimados. Só lhe resta a constatação de que pode vir a ser nada. Ele se vê agora pedaço de qualquer coisa. Parte deste todo inerte e imune à contaminação humana.
Dois pronomes no escuro em sua lembrança. Na quitanda ou no armazém quando olhava aquelas paredes tristes e caiadas. Os dois frente a frente no escuro, a irritação pelo fato do pronome indefinido alguém haver derrubado o maço de cigarros. Ele, este pronome reto com o maço de cigarros à mão. Alguém que lhe pede desculpas, mas percebe que sua passagem está bloqueada pelo mesmo.
É ele, nosso pronome reto, que tenta agora voltar para a quitanda ou armazém. A porta fechada, a hora já se faz tarde. Ele e alguém frente a frente no escuro. Um carro desgovernado atinge em cheio a loja de conveniência do outro lado da esquina. Ouve-se uma enorme explosão.
Ele e alguém olhos fixos um no outro: Dois vazios com jeito de mortos-vivos.
João Ayres
Escritor e poeta.
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