A palavra entrevista no jornalismo emerge como um fenômeno importante de comunicação social. De acordo com Edgar Morin ela é um tipo de intervenção, sempre orientada para a comunicação de informações. Fora do campo da espetacularização, as entrevistas intentam para a compreensão mais plena das pessoas e suas realizações. Num certo sentido é um estudo permanente, humanístico e desbravador com imperativos democráticos, e aponta uma interação a serviço da construção do imaginário coletivo. No outro uma investigação histórica sempre pertinente para os leigos e entendidos. Pode ainda referir-se a um diálogo possível entre entrevistador e entrevistado, uma colaboração no sentido de trazer à tona uma verdade ou parte dela, regada pela emoção, temperada com clareza e servida pela razão compreensiva. Transforma-se em conversas, bate-papos, depoimentos, declarações, juízos de valores ou confissões. A entrevista é um gênero direto e esclarecedor da modernidade, e o seu exercício cultural e consciente, na atualidade, produz livros que merecem um espaço especial nas estantes das melhores bibliotecas.    

É o caso da edição bilíngüe (português/espanhol) de Dez conversas: diálogos com poetas contemporâneos (Gutenberg Editora, 2004), de autoria do jornalista, professor e poeta mineiro Fabrício Marques, doutor em literatura comparada (UFMG) e atual editor do Suplemento Literário de Minas Gerais. Uma obra valiosa e ágil, plural e revigorante, pautada pela qualidade de discernimento e esforço jornalístico em compreender o atual panorama da poesia brasileira. As entrevistas exclusivas foram feitas entre 1997 e 2003, e publicadas no jornal O Tempo e Suplemento Literário de Minas Gerais. Uma nova rodada foi feita com a maioria dos poetas durante o ano de 2003, garantindo uma unidade editorial à publicação, rompendo com o ritmo factual e efêmero do jornalismo diário. O prefácio é do prosador e poeta Joca Reiners Terron, criador da Ciência do Acidente, um selo original e independente, que lançou mais de trinta livros de escritores diferentes. A tradução para o espanhol é da poeta Prisca Agustoni e as fotos inéditas de Guilherme Bergamini.

Trabalho de Fôlego

Nas 272 páginas (a primeira metade em português e a outra em espanhol), Dez conversas registra de maneira multidisciplinar o entendimento de dez escritores com diferentes projetos estéticos em relação à poesia. Ao invés de amparar-se numa suposta segurança das idéias recebidas ou no prestígio de alguns dos entrevistados, pela indagação e descoberta o autor procura não só resgatar e chamar a atenção para as suas biografias e obras que considera importantes, como também se desdobra em decifrar nas interlocuções os esclarecimentos relevantes, e se mantém numa posição firme que lhe permite desafiar com o máximo de vigor a prática poética, conservando o estilo de linguagem dos entrevistados. No seu modo inquieto de entrevistar, Fabrício Marques parece ter em mente o verso-postulado de Fernando Pessoa em Autobiografia (1931), “O poeta é um fingidor”, uma metáfora dissimulada, porém útil ao estabelecer como no próprio poema de Pessoa o que se revela/oculta, guarda, aguarda para ser dito. Nesta esteira caminha o livro. Com interrogações e proposições editadas numa ordem progressiva onde o pensamento caminha com a imaginação. Revelando com prazer e proveito declarações inéditas aos leitores, mesmo que tenha que desconversar, mudar de ritmo, ser até meio irreverente, para atingir a sua proposta principal: um texto mais próximo da fala do que da palavra escrita.