Coreografia de Samwaad - Rua do Encontro

Assistindo ao espetáculo de dança Samwaad - Rua do Encontro, de Ivaldo Bertazzo, em parceria com ONGs da cidade de São Paulo que agregam jovens da periferia a fim de resgatá-los, dentre outras expectativas artísticas, comecei a questionar  então algumas “manias” do ser humano.

O espetáculo faz uma fusão de duas culturas, a da Índia e a do Brasil, países tão distintos culturalmente. O Brasil, pautado pela multiplicidade e a influência de diferentes culturas, é recheado de cores, de  raças, de cantos e sons. A Índia, com suas tradições milenares, encanta por suas lendas e seus batuques. E como é atraente a fusão destas paisagens.

Percebi quanta beleza tinham aqueles corpos, bailarinos tão diferentes e tão fora dos padrões que estamos acostumados a ver dançando. No entanto, possuíam uma beleza ímpar que jamais pude constatar antes.

Os corpos dançantes capturam momentos da cidade, mostram como os gestos podem ser trabalhados e transformados poeticamente para a cena. O corpo cotidiano desnudado em linhas maravilhosas, dinâmicas precisas, ritmos contagiantes, cores marcantes, vindas  de indivíduos comuns. Nem belos, nem feios, nem retos, nem tortos, apenas pessoas ricas de individualidade e da beleza que cada um tem apenas por serem humanos.

Parei para pensar na atualidade. Desde que nascemos, somos julgados em primeira instância pela nossa aparência física, mais do que pelas nossas reais qualidades e capacidades. Nossos pais vibram com a expectativa de constatar que somos perfeitos, depois, se somos “bonitinhos, são os primeiros ecos de nossa atualidade, vítima da ditadura do belo. Ficamos nós, sempre coagidos diante destas expectativas”.


Samwaad: fusão de culturas

O problema não é beleza, mas o fato dessa ditadura estar aliada a ilusão de isso ser a primeira importância em um ser humano. Como se sua essência não fosse considerada importante diante de um corpo “sarado”.

Em Samwwad, Ivaldo Bertazzo busca “sarar” a doença da mente, que sempre quer encaixar os corpos em modelos. Buscando nas experiências dos jovens bailarinos  a descoberta e os significados gestuais para reabilitá-los à vida, chegando a proporcionar uma nova roupagem para  seus corpos.

Ivaldo reforça a possibilidade do indivíduo se encontrar com seu corpo e sua movimentação, e por conseqüência achar sua real beleza. Sendo assim, quaisquer corpos, gordos, magros, altos, baixos, pretos, brancos poderiam dançar com precisão e verdade.

A partir daí, desenvolveu seus estudos criando técnicas para formar “não-bailarinos”, assim como “não corpos”, diferentes dos modelados e construídos para apenas representar o belo, como freqüentemente vemos hoje.

Construir um corpo esteticamente perfeito atualmente é fácil, temos milhares de exemplos nas inovações da medicina estética. Podemos remodelar e concertar aquilo que já é perfeito. Buscamos a tentativa de anular as diferenças, escondendo o desejo de neutralizar o mal-estar de ser desigual. Eliminando todos os acúmulos das famosas gordurinhas (que servem de proteção e a sabedoria do corpo permite seus acúmulos), vemos a cada dia que passa a vida ser banalizada.    

Dentre os efeitos da globalização, solidificados pelo modelo neoliberal, vemos a homogeneização dos produtos e atividades humanas. Aos poucos vamos ficando todos iguais, todas as mulheres querem ter o peito da Gisele Bundchen, as pernas da Claudia Raia, etc., para isso os compram nas clínicas de estética, como se estivessem num grande supermercado a serviço do corpo.


Ivaldo Bertazzo durante ensaio

Numa total inversão de valores, a singularidade de ser um é substituída por valores de consumo. Como se o corpo fosse reflexo da alma. Quanto mais reto o corpo mais sua vida é pautada pela retidão e assim por diante, como se a beleza de cada indivíduo não estivesse pautada nas diferenças.

Nos últimos anos, o “culto ao corpo” se tornou uma preocupação geral que atinge as mais diferentes classes sociais, faixas etárias e setores da sociedade e tornou-se uma preocupação geral. Atravessamos a fase da magreza generalizada, estar gordo, ter barriga, dobrinhas, ou quaisquer excessos é como se estivéssemos cometendo algum tipo de infração aos olhos dos observadores, sempre de plantão a procura de um defeito.

Nos corpos destes adolescentes bailarinos do Samwwad, podemos notar o empenho de se mostrar único, um corpo inteiro parte de uma vontade maior, a vontade de expressar uma razão, um desejo de mostrar um corpo com alma e vida. Talvez isso traga mais inspiração para a nossa existência.


Carolina Romano de Andrade é Bailarina, Coreógrafa, Pesquisadora em Dança, Professora de Dança e Ballet formada pela Royal Academy of Dance, Bacharel em Dança pela UNICAMP e Mestranda do Instituto de Artes da Unicamp.
carolromano@terra.com.br