No Banheiro Um Espelho Trincado (2004, Ciência do Acidente) – Sérgio Mello

Interessante e original a poesia de Sérgio Mello. Muitos dos poemas têm algo de cinematográfico, construídos em bases de elementos mais próprios das narrativas. Durante a leitura, o leitor se percebe envolvido por certos ambientes, acompanhando situações nas quais, muitas vezes, é muito fácil qualquer um se reconhecer, não de maneira direta e literal, é claro, mas nas emoções que aquelas situações sugerem. Pequenos enredos desenvolvidos em “becos obscuros”, muitos se reconhecem nisso. Mas ainda não é nessa elaboração que está a originalidade porque isso não chega a ser novidade, interessante é a maneira como são pontuados esses elementos, as imagens construídas é que são bastante originais, aquelas que nos transmitem a ambientação, as situações criadas ou mostram as “caras” daqueles que nos parecem personagens. Esses elementos são elaborados de forma original e criativa propiciando a “liga” do que de repente se revela poesia. A força do texto é essa síntese de significados, esse contar histórias em poucas palavras que nos dizem muito mais do que está efetivamente escrito. E isso é poesia, e no caso de Sérgio Mello, das boas. (Marici Silveira)

Ego excêntrico (2003, Sêlo Editorial) - Makely Ka

O poeta e compositor mineiro Makely Ka é um autêntico outsider, seu segundo livro Ego excêntrico é o registro de uma poética deliberadamente marginal.

A força e a tensão de seu texto, inadequado a quaisquer padrões, ultrapassa até mesmo o formato do livro. Não à toa, Ego Excêntrico é publicado no sentido oriental de leitura, ou seja, o início da edição fica onde normalmente seria o fim, do outro lado. O livro vem acompanhado do cd poemas de ouvido. A inquietação de sua poesia não permite que seus textos sejam registrados apenas no papel, ainda que daí eles insistam em saltar, escapulir, são também registrados em sua fala, ainda que daí também insistam em saltar, escapulir. Makely não se interessa pela literatura do ponto de vista estético e acredita que a poesia vem muito mais acompanhada de outros campos da arte do que da própria literatura, para ele a literatura possui um elemento racional, que não cabe à poesia: “literatura o caralho / eu faço é poesia / porra!”. Há para o poeta um vínculo muito maior entre a poesia e a música. Como escreveu Ezra Pound, a poesia começa a se atrofiar quando se afasta da música. Ego excêntrico traz também poemas que foram musicados e gravados pelo próprio autor no cd homônimo, e também por músicos como Kristoff Silva (no cd Outra Cidade ), Envil FX e Alda Rezende (cd Samba Solto), Pablo Castro, Renato Villaça, entre outros.

Makely Ka dialoga com Leminski, Maiakovski, Torquato Neto, Chacal... mais do que isso, transforma sua verve irônica, sarcástica e combativa em poesia de invenção. Com um texto dotado de uma linguagem anárquica, faz guerrilha contra as mazelas e as mediocridades do cotidiano, sua arma é a palavra. Ego Excêntrico retoma a boa e velha malandragem no fazer poético, ultimamente esquecida e deixada de lado pelos “jovens” e promissores poetas doutores, idolatrados pela Academia e pelos Cadernos de Cultura: “poetas são inacessíveis / sensíveis / sensatos / por isso vou logo / com os dois pés no peito / pau-no-cu da poesia pé-no-saco”. A principal matéria de sua poesia é mesmo a vida. (Sandro Eduardo Saraiva)

Orfanato Portátil (2003, Atrito Art Editorial) – Marcelo Montenegro

A poesia tem essa coisa bonita de ser reconstruída na leitura e nas releituras de maneira renovada, possibilitando ao leitor ser um pouco autor, dando a contribuição do seu olhar particular. Mas alguns poemas são rasos, se esgotam rapidamente. O que chama a atenção na poesia de Marcelo Montenegro é o tanto que ela oferece ao leitor nessas possibilidades de releitura, um texto que revela caminhos extensos, ricos de significados e emoções. A vitalidade de sua poesia não se mostra como a força de uma energia estridente mas de maneira suave como a magia de uma tela impressionista, um todo conciso mas muito bem amarrado pelo cuidado com os detalhes. Os poemas são construídos, na maioria das vezes, em poucas linhas, contudo, com elaboração exata. Ou seja, se tem a impressão de que não sobra nem falta nada, de que as palavras não poderiam ter sido outras nem organizadas de outra forma, parece que ele encontra o “ponto” certo da alquimia, da junção dos ingredientes – forma, música, significado e silêncio – que existem em cada palavra e na precisa união delas. Daí a impressão de uma poesia de emoção muito afinada pela inteligência, o que resulta numa sofisticação alcançada somente com sincera competência. (Marici Silveira)

carne viva (2003, edição do autor) – Marcelo Sahea

  O segundo livro de Marcelo Sahea carne viva vem embrulhado numa gaze, na capa (um desenho de Pietro da Cortona) uma mulher abre gentilmente seu ventre, a tarja vermelha, igual embalagem de remédio, completa a composição. Logo de cara Sahea dá contornos de livro-objeto à publicação. Invólucro extremamente coerente ao conteúdo, pois se trata de poesia viva e pulsante que extrapola as páginas do livro. A impressão em vermelho remete a Nietzsche: “De tudo aquilo que é escrito, me faz gosto de fato apenas aquilo que alguém escreve com sangue. Escreva com sangue e haverás de experimentar que sangue é espírito”.

A sugestão plástica inicial é poderosa, assim como toda a composição do livro.

Já nos primeiros poemas somos convidados a penetrar a ferida aberta, o âmago de sua poesia, o parto (criação) se transforma em porta (fruição). O concretismo é uma forte referência, engana-se, no entanto, quem pensar aqui em poesia concreta como hermetismo. O rigor formal de c arne viva jamais torna seu texto difícil, inacessível, pelo contrário, a concisão, a exatidão de sua poesia busca a essência da linguagem. Não há espaço para o excesso, Sahea é um minimalista, um escultor da palavra que lapida e reinventa o fazer poético. É justamente nessa essencialidade que reside a força de sua poesia.

Verdadeiros achados compõem c arne viva , como o poema “tabu”, onde a palavra tabu encontra-se dentro da palavra buceta, o poema “guarDAR”, em que o poeta aponta dois significados antagônicos coexistindo placidamente na mesma palavra, em “dream/merda” uma simples mudança de lugar das letras da palavra dream, resulta na palavra merda, gerando uma re-significação rica em associações . Há também poesia visual: em “cicatriz” a palavra dor aparece escrita em braile fixada na pele, em “péssarinho” dois pés juntos imitam o vôo de um pássaro.

Embora o concretismo permeie todo o livro, seria equivocado impingir um dogma à poesia de Marcelo Sahea, sua poética verbicovisual prescinde qualquer tipo de camisa de força, é carne viva à flor da pele. (Sandro Eduardo Saraiva)

das infimidades (2004, Edições in vento) – Leo Gonçalves

É um grande prazer folhear das infimidades , primeiro livro de poesia de Leo Gonçalves, mineiro de Belo Horizonte que também publicou traduções de Canções da Inocência e da Experiência , de William Blake (Crisálida, 2005, em parceria com Mário Alves Coutinho), Isso, de Juan Gelman ( UnB, 2004, em parceria com Andityas Soares de Moura) e a comédia O doente imaginário de Molière (Crisálida, 2002). Uma edição pocket impressa em topografia que lembra muito os livrinhos marginais de Plínio Marcos. A escolha pelo artesanal, pelo alternativo, não é gratuita. A poesia do autor se evidencia através de um humor sutil, da ironia, da urbanidade, do detalhe. Flaneur que colhe fragmentos no dia-a-dia da cidade. Apanhador do ínfimo, do pequeno, do pouco.

Poemas curtos que se assemelham ao haicai, sem, no entanto, o mesmo rigor formal, são a tônica em das infimidades. Leo Gonçalves flerta com a poesia marginal, sobretudo Leminski, Chacal e Cacaso, seu texto tem como marca o frescor, a espontaneidade. Muitas vezes o ritmo de seus poemas se aproximam da canção. Existe uma certa coloquialidade em sua poesia, um descuido proposital, aquela aura vadia, vira-lata, livre e descompromissada que confere leveza ao trabalho. Há construção, claro, mas a principal matéria usada pelo poeta para engendrar seus textos é o acaso, ou melhor definindo, a elaboração do acaso. (Sandro Eduardo Saraiva)