
POESIA toda poesia devia ser tão vagabunda quanto aquela última fatia de pizza doce de mussarela na estufa da padaria brindes perfumados do lava-rápido pendurados no espelho retrovisor artesanato de cadeia toda poesia devia ser tão vagabunda quanto o adolescente que abandona o batente pra ficar em casa vendo Chaves quanto o hiponga espaçado ao sol de segunda-feira na grama do jardim do Citibank a poesia não devia se dar ao respeito esquadrão de Etty Frasers usando batas de margaridas e se aproveitando do tumulto da feira-livre pra esbarrar no cacete do menino do carreto pederastas que já passaram dos 60 comprando bugigangas na 25 de Março pra trocar por enrabadas potentes dos crioulos do Malecón a puta que acredita que nenhuma loteria equivale a um chicle de bola de boa safra toda poesia devia ter o lirismo desolado de um campinho de futebol de várzea G. Corso tentando abrir uma lata de salsichas com o bico de uma caneta C. Bukowski retomando a consciência aos poucos com desenhos da Hannah Barbera um velho surdo reproduzindo o escudo do Palmeiras num quadro usando pregos e linha só acredito na poesia que prega o desespero só acredito na poesia que não diz o menu do jantar de ontem e sim rasga o próprio estômago e despeja tudo como se sacudisse uma bolsa feminina de cabeça pra baixo flores peixes e borboletas deviam ser excluídos da poesia a lua devia constar apenas em mapa astral toda poesia devia ser tão falsa quanto um Bono Vox gentil quanto a alegria diante das fontes adestradas do Ibirapuera eu menti a um juiz sobre um atropelamento pra ver se minha tia arrancava uma indenização polpuda da CMTC e tudo que ela conseguiu foi uma perna manca uma vida manca e risinhos durante sua passagem a caminho do coral de uma igreja batista toda poesia devia ser escrita nas escadarias de um prédio em chamas enquanto os bombeiros pulam seu corpo encolhido tentando proteger um bloco de anotações a única caneta pra poesia é o dedo saído do exame de diabetes eu odeio poesia eu odeio poetas porque eles se movem em câmera lenta como em propagandas do Suflair e tiveram bronquite na infância e tartarugas de estimação só acredito na poesia genuinamente triste uma menina que sai pra sua aula de dança e nunca mais volta alguém que desistiu de acender um cigarro porque tava ventando muito