marcelo montenegro

Cultivar uma plantação de morcegos/ E no meu alfabeto maluco de medos/ Apagar de uma vez por todas/ Todos os aposentos da delicadeza. (“Making Off”).
E mais: “ óbvio insolente”, “kriptonita”, matinê, guardando as tralhas.

makely ka

pétalas de carne que inflamam/ vida num fio de lâmina/ olhos secos da areia do atacama/ e nem bombas de gás lacrimogêneo me levam às lágrimas.

E mais: “adivadador”, “vejo um filme onde a imagem some”, “um ano a mais”, “fadas safadas”.

leo gonçalves

dar margens ao vazio/ até pode ser comovente/ um poema uma cara um sorriso/ ou um cio/leve/como quem vente. (“margens”).

E mais: “um haicai”, “favela”, “urubu”, “gato preto”.

paulo de toledo

espernear como a criança/ que grita pelo pirulito/ criar um poema ilegível/ igualzinho a tal da rubrica/ do inventor do primeiro mito.

E mais: “depois de ficar quase afônico”, “parado no intervalo entre o olvido e a idéia”, “para inspirar a língua do poeta”, “poética”.

aurélia

dopei o dobermann e entrei/ninguém ouviu-me vulto/um ruído escuro-breve/pisei o tapete de leve/e quase voa a dor . (“lá”).

E mais: “um olho”, “v de vênus”, “lá”, “babel”, “biografia”.

marcelo sahea

como santa/ sendo tantas?/ como nua/ sendo manta?/ como esfria/ se estua?/ como grão/ se se agiganta? (“como lua”).

E mais: “óculos de waly”, “surrealismo segundo brossa”, “poemosca”, “lanterna treva”.

lenise regina

Feitura de intervalo/ buraco de tiro/ de vagina/ de olho com sol/ de dor que trespassa/ que aparta/ que estica/ ontem desfeitos os castelos /areia nos olhos. (“hiato”).

E mais: ”over dose”, “menos”, “INvernada”, “7 vidas”.

sergio mello

só acredito na poesia que prega o desespero/ só acredito na poesia que não diz o menu/ do jantar de ontem/ e sim rasga o próprio estômago/ e despeja tudo como se sacudisse uma bolsa feminina/ de cabeça pra baixo . (“Poesia”)

E mais: “o silêncio”, “para p., sem rima”, “oração de borracharia”, cativeiro.

Dope o dobermann e entre, esgane essa ternura metida a besta (que o diabo carregue ou leve com o vento). Cole a boca ao poema e retenha na língua a superfície áspera de palavras sem polimento. Esperneie como criança que grita pelo pirulito, uma vez aqui dentro, elas saberão te ninar. E no último dia do ano ela se cansará dessa pose e desse maldito calendário, ela vai querer um relax, então nem bombas de gás lacrimogênio te levaram às lágrimas.

Depois de ficar quase afônico de soletrar os nomes mântricos de todas as mulheres da lista telefônica, desista de procurar por esse amor recôndito. Palavra reverberando-se no fundo da caverna, degelo da letra ainda sonolenta, que se move com fúria, dar margens ao vazio até pode ser comovente. Usando os óculos de Waly vagueie pelos cômodos da casa, arrastando seu amontoado de ossos de pelúcia, deixe o olho vadio, invadir quase invisível um quarto de espelhos quase vazio. Fixe seu olhar na tela e a única lembrança que terá é da imagem do perfume no frame do cravo na lapela. Não se discute: no futebol como na poesia, o que vale é o conjunto da obra, a geometria imprevisível que faz a pelota beijar o barbante. A poesia. A imensurável poesia.

Livros

A revista Etcetera comenta os livros publicados pelos poetas que fazem parte deste encarte. No Banheiro Um Espelho Trincado de Sergio Mello, Ego Excêntrico de Makely Ka, Orfanato Portátil de Marcelo Montenegro, carne viva de Marcelo Sahea e das infimidades de Leo Gonçalves. Por Marici Silveira e Sandro Eduardo Saraiva. [...]