Certo dia uma professora da EBA nos trouxe o depoimento: “Ganhei meu dia. Chegando hoje de manhã na Escola, vi uma coisa reluzente caindo vagarosamente de uma das árvores lá na entrada, quando me aproximei pra olhar o que era, vi que era uma folha dourada”. Era o Projeto “Folhas de Ouro”, que realizamos em 2002. Para nós essa fala foi um presente: o acaso tinha criado uma nova situação para o trabalho...

***

Utilizando os meios como espaço de atuação

Há uma vontade e uma atitude no Poro que tem a ver com o primeiro momento da história da Xilogravura. Uma vontade de disseminar os trabalhos, de fazer as idéias circularem, de pensar os meios como forma de expressão. Para isso utilizamos meios de comunicação de baixo custo, como: carimbo, adesivo, lambe-lambe, camisetas e panfletos tipo milheiro.

Fazer trabalhos críticos utilizando esses meios é uma forma de re-significá-los. Além de permitir que os trabalhos possam ser distribuídos/inseridos em diversos ambientes, indo desde instituições culturais até muros da cidade, desde a casa de um amigo até um telefone público ou um quadro de aviso de padaria . Por se tratarem de múltiplos[1] os trabalhos podem ser compartilhados, de modo que outras pessoas também os utilizem ou possam difundi-los. A possibilidade de que o trabalho possa ser multiplicado a partir de sua matriz[2] permite que trabalhos simples do ponto de vista material, como um panfletinho, consiga um grande alcance, chegando até muitas pessoas em diferentes pontos do país.

Isso aconteceu com o trabalho “Propaganda política dá lucro!!!”, por exemplo. Um santinho tipográfico que ironiza diversos "artifícios" do marketing político e, de quebra, a promessa de emprego fácil através de cursos charlatões. No período de propaganda eleitoral de 2002 e 2004, o panfleto circulou de diversas formas. Foi amplamente distribuído em locais públicos de grande circulação de pessoas, em situações como palestras, filas, pontos de ônibus. Foi afixado em quadros de aviso de escolas, paredes de botecos, bancas de jornal, galerias de arte e outros locais de circulação de informação. Foi deixado aos montinhos em centros culturais, mercearias, cinemas e outros lugares onde ficam folders/panfletos/flyers para que as pessoas peguem. Foram preparados envelopes com vários panfletos juntamente com uma carta-proposição[3]; estes envelopes foram  enviados pelo correio para uma rede de amigos de diversas cidades brasileiras. Uma versão em PDF do panfleto foi colocada na Internet na revista Etcetera[4] para que as pessoas pudessem baixar o panfleto, imprimir, xerocar e distribuir. Houve também uma versão somente em texto que foi enviada num e-mail intitulado “Curso grátis”. O texto do e-mail começava com o dizer “gentileza divulgar” e havia link para a página da Etcetera, para quem quisesse ver mais sobre o “propaganda política dá lucro!!!”. A mensagem do email terminava com: “não responda este e-mail: passe-o para frente”. A partir do momento em que o panfleto foi colocado na Internet, perdeu-se o controle de onde ele foi parar

***

Inserções em circuitos ideológicos: revisitando Cildo Meireles

Na década de 70 o artista plástico Cildo Meireles identificou a existência de “circuitos ideológicos” e realizou duas propostas de “Inserções”, o “Projeto Coca-cola” e o “Projeto Cédula” – dois clássicos da arte brasileira[5]. Retomando a idéia de Cildo de carimbar notas de dinheiro e retorná-las à circulação, realizamos desde 2002 o trabalho “FMI – Fome e Miséria Internacional”. Por ser portátil, em diversos momentos carregamos o carimbo com a gente. Nas mais variadas situações e lugares fizemos seções de carimbagem. E era só perguntar: “Você tem uma nota para carimbar?”. Após carimbar a primeira nota, vinha outra pessoa querendo também. E de repente uma mesa de bar, ou uma roda de amigos na universidade virava uma grande euforia de pessoas querendo carimbar suas notas.