y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras
Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.
Ellas están huyendo de mi guarida obscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.
(...)

Pablo Neruda

Ela se perguntava, ao final da leitura de Dos palabras, conto de Isabel Allende, quais teriam sido as duas palavras ditas por Belisa Crepusculario ao Coronel, depois de entregar-lhe o discurso pronto. Quais teriam sido? Quais poderiam vir a ser? Ela não sabia, mas talvez  isso nem importasse  muito. 

Certo é que aquelas duas palavras, uma vez pronunciadas ao ouvido do Coronel, pareciam querer pertencer a ele e o enfeitiçaram, tomaram conta  de seu corpo, cérebro, alma e o Coronel nunca mais fora o mesmo. Dominado pelo poder das duas palavras,  ele  uniu-se a Belisa Crepusculario.

Mas a leitora do conto de Allende não se chamava Belisa, nem buscou vestir-se com um nome especial. Talvez ela se chamasse Elza, Teresa, Maria. Talvez  não se chamasse. A verdade é que queria ter em comum com Crepusculario o dom de vender palavras. Ah, se  soubesse vendê-las, venderia, assim como Belisa, qualquer uma. Venderia palavras de amor, de ódio, de compaixão. Venderia palavras alegres e palavras tristes, palavras de todas as cores, confortando alguns e a outros entristecendo. Assim, viveria.

Como não sabia vendê-las, queria então ouvi-las. Queria escutar as duas palavras ditas ao ouvido do Coronel. Desejava que aquelas especiais palavras lhe invadissem o cérebro, o corpo, a alma e ela então se deixaria consumir por elas e, quem sabe, por quem as trouxesse; por isso, seguiu buscando ouvi-las. 

I

A  sensação de que a primeira palavra estava próxima chegou-lhe num dia amarelo-ouro. Era sábado, o sol estava quente e o dia parecia de um dourado todo especial.

Tudo aconteceu no burburinho do mercado, na confusão geral de toda aquela gente comprando, pechinchando, indo e vindo, escolhendo. Ela procurava artigos para uma oferenda, espelho, flor, leque, perfume, bijuteria, sonhando encontrar a palavra dourada. Em meio àquela procura, enquanto buscava incensos, mirra, defumadores, misturas sagradas e toda a sorte de ervas e banhos aromáticos, sentiu o cheiro do pêssego.

Ali, bem atrás dela, estava ele, um vendedor de pêssegos.  Enquanto os oferecia às pessoas, ele  mastigava um, mordendo com toda força o tecido carnoso da fruta. Manteve, por algum tempo, o caroço em sua boca, como se não quisesse  perder nada daquele sabor. Depois cuspiu-o fortemente, atirando-o bem próximo ao pé da mulher.  

Movida pelo desejo de saber se estava ali a sua primeira palavra buscada ou quem sabe as duas, ela abaixou-se e pegou aquele caroço. O homem, que a observava, tentava limpar a boca com as costas da mão. E agora reinava ali toda a sorte de cheiros e odores. Todas as frutas vendidas no mercado pareciam ter naquela banca se convertido e o lugar cheirava a pitanga, goiaba, manga, o cheiro adocicado do mel, o cheiro forte de cigarro, cheiros, cheiros, cheiros... Até o cheiro da gasolina entrava lá de fora, o gás, os combustíveis.

O homem olhava direto para os seios dela que, debaixo do seu transparente vestido amarelo, estavam intumescidos como os pêssegos e pareciam apontar para os lábios daquele homem,  talvez ainda molhados pelo líquido que escorrera da fruta.