Lars Von Trier

Lars Von Trier nasceu no dia 30 de abril de 1956, em Copenhague, Dinamarca. Seus pais, intelectuais ateus e comunistas, rejeitavam qualquer expressão artística considerada ‘alienante': o melodrama, o universo espiritual e religioso. Mantinham sobre Trier uma educação moral rígida, proibindo-lhe até de assistir à televisão. Com doze anos de idade e uma câmera emprestada da mãe, Lars começa a captar imagens ‘subversivas' numa forma de rebeldia à sua família.

Mais tarde, ao definir-se seu gosto pelo cinema, fez a Escola de Cinema de Munique e a Escola de Artes Cinematográficas de Copenhague produzindo diversos curtas metragens, muitos deles inéditos até hoje. Somado a isso, fez dezenas de trabalhos publicitários, mini-séries e videoclipes para o DR, canal televisivo da Dinamarca. Em 1984, dirigiu seu primeiro longa-metragem, O Elemento do Crime (Forbrydelsens Element / The Element of Crime) que ganhou o Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes do mesmo ano. Em 1987 fez Epidemia (Epidemic) - não obtendo o mesmo sucesso anterior. Até meados de 1990, Trier ainda fez Medéia (Medea, 1988), Dimension (1990), Europa (Zentropa / Europe, 1991) – que mereceu em Cannes o Grande Prêmio do Júri e Prêmio de Melhor Contribuição Artística; a série mórbida O Reino (Riget / The Kingdom, 1994) e O Reino II ( Riget II / The Kingtdom II, 1997), além de Ondas do Destino (Breaking the Waves, 1996) e Os Idiotas (Idioterne / The Idiots, 1998).


Cena de O Elemento do Crime , primeiro
longa de Trier

Foi na década de 1990 que Lars Von Trier demonstrou seu domínio da linguagem cinematográfica, inaugurando um estilo bem pessoal: o uso da ‘câmera na mão' e a subversão dos elementos rígidos e convencionais da indústria do cinema. Certamente influenciado pela tradição do cineasta veterano, Carl Theodor Dreyer, seu cinema dissonante abrange universos catárticos, estranhos e permeados por algum tipo de transgressão, de uma leitura estranha. Por exemplo, apropria-se de elementos da esfera do religioso para expressar o inadequado e o inesperado. Basta lembrarmos de Os idiotas em que discute os limites entre o homem “normal” e o “idiota”; de O Reino, onde os médicos são desequilibrados, errando num hospital assombrado por almas penadas que entram em contato com uma paciente com poderes mediúnicos; ou de Ondas do Destino cuja personagem central, Bess McNeill, considerada doente mental pela família, carrega o sacrifício da religião (chegando até a conversar com Deus, seu “amigo imaginário”) e da sexualidade. Numa esfera transcendental, seus personagens são como almas, vagando num mundo à parte, mundo este criado por Trier.


Stellan Skarsgard e Emily Watson
em Ondas do Destino: inadequação
através do religioso

O estilo subversivo do cineasta deu origem a um manifesto cinematográfico escrito numa segunda-feira de março de 1995, na Dinamarca: o DOGMA 95[1], concebido por Trier e seu colega Thomas Vinterberg. O manifesto, que se ampliou para o movimento de um grupo de cineastas, consistia de uma lista de dez regras pragmáticas – o “Voto de Castidade” – cujo objetivo principal era “uma ação de resgate” para conter “certas tendências contemporâneas”, resumidas num fazer fílmico geralmente “cosmetizado à exaustão”. Assim, ao regrar os modos de produção do cinema, o Dogma 95 esboça uma contradição que fornece tanto a normatização quanto a subversão de seus conceitos. E Lars Von Trier já o previa: para burlar regras, é preciso criá-las.

 Manifesto Dopgma 95

O Dogma 95 é um movimento de cineastas, fundado em Copenhage na primavera de 1995.

O Dogma 95 tem o compromisso formal de levantar-se contra uma "certa tendência" do cinema atual.

O Dogma 95 é um ato de resgate!

Em 1960, tivemos o bastante. O cinema estava morto e invocava a ressurreição. O objetivo era correto, mas não os meios. A Nouvelle Vague se revelava uma onda que, morrendo na margem, transformava-se em lama.

Os slogans do individualismo e da liberdade fizeram nascer certas obras por algum tempo, mas nada mudou. A onda foi jogada ao colo dos melhores convivas, junto aos cineastas, mas não era mais forte do que aqueles que a haviam criado. O cinema antiburguês tornou-se burguês, pois se baseava em teorias de uma concepção burguesa de arte. O conceito de autor, nascido do romantismo burguês, era, portanto...falso.

Para o Dogma 95 o cinema não é uma coisa individual!

Hoje, uma tempestade tecnológica cria tumulto. O resultado será a democratização suprema do cinema. Pela primeira vez, qualquer um pode fazer filmes. Mas quanto mais os meios se tornam acessíveis, mais a vanguarda ganha importância. Não é o caso que o termo vanguarda assuma uma conotação militar. A resposta é a disciplina ... devemos colocar os nossos filmes em uniformes, porque o cinema individualista será decadente por definição.

Para erguer-se contra o cinema individualista, o Dogma 95 apresenta uma série de regras estatutárias intituladas "Voto de castidade".

Em 1960, tivemos o bastante. O cinema havia sido "cosmetizado" à exaustão, dizia-se. Dali em diante, todavia, a utilização dos "cosméticos" aumentou de modo inaudito. O objetivo supremo dos cineastas decadentes é enganar o público. É disto que nos orgulhamos? É a este resultado que nos conduziram cem anos de cinema? Das ilusões para comunicar as emoções? Uma série de enganos escolhidos por cada cineasta individualmente?

A previsibilidade (a dramaturgia) tornou-se o bezerro de ouro em torno do qual dançamos. Usar a vida interior dos personagens para justificar a trama é muito complicado, não é a "verdadeira arte". Mais do que nunca, são os filmes superficiais de ação superficial que são levados às estrelas. O resultado é estéril. Uma ilusão de pathos, uma ilusão de amor.

Para o Dogma 95, o filme não é ilusão!

Hoje em dia, arma-se uma tempestade tecnológica. Elevam-se os "cosméticos" ao status de deuses. Utilizando a nova tecnologia, qualquer um pode - em qualquer momento - sufocar a última migalha de verdade no estreito canal das sensações. As ilusões são tudo aquilo atrás do qual pode esconder-se um filme. Dogma 95, para erguer-se contra o cinema de ilusões, apresenta uma série de regras estatutárias: o Voto de Castidade.

 Voto de Castidade

Eu juro me submeter ao seguinte conjunto de regras criado e confirmado pelo Dogma 95:

 1. As filmagens devem ser feitas em locais externos. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá, portanto, ser utilizada, a menos que não ressoe no local onde se filma a cena).

3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há luz demais, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).

5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6. O filme não deve conter nenhuma ação "superficial". (Em nenhum caso homicídios, uso de armas ou outros).

7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (Isto significa que o filme se desenvolve em tempo real).

8. São inaceitáveis os filmes de gênero.

9. O filme deve ser em 35 mm, standard.

10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Copenhage, 13 de março de 1995.

Em nome do Dogma 95,

Lars von Trier