<strong>Marcatti:</strong> mais underground que o diabo

MARCATTI é o cara mais underground que eu conheço. Desde o final dos anos 70 ele nos brinda com seus gibis publicados de maneira independente. Títulos como Refugo, LôdoMijo, Ventosa  nasceram na emblemática Rex Rotary - impressora dinamarquesa onde o autor imprimiu a maioria de seus quadrinhos - .  Influenciado por Robert Crumb, Gilbert Shelton, Basil Wolwerton, Harvey Kurtzman, Hunt Emerson e Wolinski, o quadrinhista desenvolveu um estilo único e inconfundível que pôde ser conferido também nas revistas Chiclete com Banana, Circo, Tralha e Mil Perigos.  Além de publicações marginais (Creme de Milho com Bacon, Glaucomix - o pedólatra, Ratos de Porão Comix, etc.) Marcatti ainda teve trabalhos publicados por algumas editoras, foi o caso da série Frauzio e da coletânea Restolhada. No início de 2000 chegou a montar sua própria editora (na verdade legalizou a PRO-C, a mesma que mantinha desde o início das publicações), trazendo à luz Desventuras de Frauzio, Fábulas do Escárnio e Prega. Toda essa trajetória rendeu a Marcatti 4 prêmios HQ Mix consecutivos, como melhor publicação independente, e um prêmio Jayme Cortez, dado a quem incentiva os quadrinhos brasileiros. Em janeiro foi lançado pela Conrad seu trabalho mais recente, o livro Mariposa. O traço sujo e as histórias recheadas de escatologia compõem a linguagem essencialmente subterrânea de seus quadrinhos. Diversão garantida e uma rara oportunidade de rir de si mesmo e da raça humana.

Em pleno domingo de Carnaval, fomos até o pequeno estúdio no bairro do Tatuapé onde, munidos de gravador e máquina fotográfica, registramos as idéias do Papa da marginália paulistana. (Sandro Eduardo Saraiva)

Revista Etcetera: Em Heavy Metal do Senhor, Zeca Baleiro canta que o diabo é o cara mais underground. Discordo absolutamente, o cara mais underground é o Marcatti...

Marcatti: ...é a encarnação do diabo (risos).

Etc: ...Desde o final dos anos 70 e começo dos 80 você se autoproduziu, confeccionando suas revistas na hoje mítica e emblemática impressora dinamarquesa Rex Rotary. Queria saber se essa autoprodução foi falta de opção ou tinha o lance de fazer guerrilha mesmo, inadequação ao meio de produção, de não querer participar de esquema de editora e de ter controle total sobre seu trabalho, até mesmo por se tratar de um trabalho bastante autoral, etc.

Marcatti: Na verdade o lance de me manter independente foi uma conseqüência. Faço quadrinhos desde moleque. Da mesma maneira que hoje existem os fanzines, revistas eletrônicas, internet, uma série de recursos que tornou tudo mais fácil, na época não tinha nada disso, e ainda pra piorar, existia uma porra de uma ditadura militar. Já não era fácil editar uma revista, ainda mais com censura!  Meu esquema de autoprodução foi porque quando comecei a desenhar entrava de gaiato nas revistas alternativas feitas em faculdade, mas de repente todas pararam, aquele pessoal que tava fazendo saiu da faculdade e o quadro não se renovou, então não tinha mais onde publicar. A iniciativa de comprar uma impressora foi porque eu estudava no Senai e tal...essa história todo mundo conhece...minha intenção era fazer quadrinhos, não uma coisa revolucionária, eu queria fazer história em quadrinhos, publicar meu trabalho, inclusive fazia sem nenhum amadurecimento. Quando comprei a máquina, trabalhava da maneira que eu bem entendia, cometendo erros. Então eu fui imprimindo, não só eu, haviam pessoas que me acompanhavam, publicavam, afinal a máquina era pra isso. Não a usava para fins comerciais ou para serviços de gráfica, era só pra imprimir gibis. As pessoas foram se aproximando, publiquei várias revistas com esse exercício de linguagem que acabou criando uma liberdade que eu não teria numa editora. Foi uma conseqüência, não uma coisa do tipo “ah eu vou fazer assim porque as editoras nunca vão me publicar”, elas não quiseram me publicar, não querem, justamente porque eu comecei a fazer aquelas merdas (risos).