Desde o final dos anos oitenta acompanho as publicações marginais de Marcatti, verdadeiras pérolas do underground como Refugo, Lôdo, Tralha, Mijo. No início a maior influência era Robert Crumb, os desenhos pareciam um improvável cruzamento do quadrinhista americano com Maurício de Sousa (!). Depois vieram Gilbert Shelton, Basil Wolverton, Harvey Kurtzman, Hunt Emerson, Wolinski que foram aglutinados e devidamente incorporados ao estilo de Marcatti desenhar. Com um traço robusto e um desenho sujo, hachuriado, uma anatomia disforme que remete principalmente a Shelton e Wolverton, o autor consolidou um estilo próprio e inconfundível. Suas histórias deixaram o tom paternalista, que ele atribui sobretudo à influência que sofreu de Robert Crumb, e ganharam o ingrediente da escatologia e do sexo bizarro, já foi chamado de Georges Bataille dos quadrinhos.

A editora Conrad lançou em janeiro o trabalho mais recente de Marcatti, o livro em quadrinhos Mariposa. Numa bem cuidada edição (capa dura, formato 16 X 23 cm, 88 páginas, impressão marrom em papel amarelo) o autor mergulha, como de costume, num universo urbano decadente, repleto de imberbes punheteiros, boates de quinta categoria,  prostitutas, cafetões e aproveitadores de variada estirpe.

No belo texto introdutório, Marcatti mistura ficção e realidade, autor e personagem. Desvela também o seu método de criação.  A história é contada no tempo que dura um cigarro aceso. Quando a fumaça se esvai é hora de começar outra história, talvez num próximo livro.

No camarim de uma boate de quinta categoria, as prostitutas Fernícia e Marlésia se preparam para mais um show de rotina. Ambas são exploradas sem dó pelo cafetão Herminiano, um escroque ganancioso e sem escrúpulos, que as condena a fazer o que ele bem entende. Esta noite, porém, Fernícia está com um brilho diferente nos olhos: ela espera ansiosamente que Nevair, um dos clientes mais assíduos da casa, a peça em casamento e a tire dessa vida. Através desse mote, Marcatti destrincha um melodrama bizarro que ganha contornos surpreendentes e inesperados.

 Mariposa tem uma forte pegada literária, perceptível no trabalho apurado dos recordatórios engendrados por uma linguagem rebuscada. O enredo é dividido em capítulos, com direto a flashbacks.  O roteiro está muito bem estruturado, aliás como na maioria de seus trabalhos, e traz uma fluidez impressionante ao livro. A escatologia pinta com cores fortes a história,  quem ficar numa leitura superficial verá apenas uma das facetas do autor - a nojeira, a bizarrice e o sexo - contudo há ali a solidão, o vazio, a degradação, enfim, o patético do ser humano. Seus personagens são melancolicamente e desgraçadamente cômicos. Claro que o humor – ainda que às vezes um humor negro, um humor sarcástico é verdade - é o principal, é o que salta aos olhos, impossível sair ileso. O quadrinhista trabalha com imagens próprias da Comédia e através do escatológico perscruta os recônditos do ser humano, trazendo a público o que é privado, mostrando tudo aquilo que por nós é escondido, nossos anseios, nossas necessidades. As personagens de suas histórias jamais se assustam ou se incomodam com a escatologia, muito pelo contrário, interagem, participam, se transformam.  Nesse ponto podemos relacionar Mariposa ao grotesco bem como foi definido por Mikhail Bakhtin: “ilumina a ousadia da invenção, permite associar elementos heterogêneos, aproximar o que está distante, ajuda a liberar-se do ponto de vista dominante sobre o mundo, de todas as convenções e de elementos banais e habituais, comumente admitidos; permite olhar o universo com novos olhos, compreender até que ponto é relativo tudo o que existe, e portanto permite compreender a possibilidade de uma ordem totalmente diferente do mundo”.

Mariposa é, antes de tudo, diversão, uma rara oportunidade para rir de si mesmo e da divina comédia humana!


Sandro Eduardo Saraiva
Editor da revista Etcetera e do e-zine [sub].
sandro@revistaetcetera.com.br