

Se dependesse de mim, o personagem mais famoso de Lourenço Mutarelli não existiria.
Quando Lourenço concebeu a idéia do personagem e me mostrou os primeiros rascunhos, confesso que fiquei decepcionada e disse a ele que não combinava com o universo mutarelliano. Sorte que nem sempre o Lourenço me dá ouvidos, porque se fosse assim, Diomedes não teria nascido.
Consegui superar a falta de simpatia e a partir deste personagem nasceu meu desejo de realizar um estudo de caso sobre a obra de Lourenço. Em um artigo para o site da USP eu o descrevi com “ aparência grotesca e personalidade instável”, eram características que me incomodavam no personagem. Mas, hoje, com o discernimento que a passagem do tempo causa, eu vejo que eu não reconhecia a imagem do próprio Lourenço no detetive. Era esta a idéia do autor. Cansado de representar personagens sempre muito parecidos consigo mesmo, Mutarelli passou a usar outras referências físicas para desenvolvê-los. Escolheu a temática policial por gostar do gênero e por sentir falta do assunto nos trabalhos de quadrinhos. Chegou a declarar na imprensa que queria escrever uma história que tivesse prazer em ler.
Acho que já comentei que depois da Confluência da Forquilha Lourenço decidiu que não produziria mais quadrinhos. Em uma entrevista para o saudoso Gabriel Bastos Júnior, ele dizia que, economicamente, era melhor trabalhar com ilustrações de RPG. Em uma das muitas conversas com seu editor e amigo, Douglas Quinta Reis, Mutarelli foi aconselhado a fazer quadrinhos como hobby. E assim, em 1997, Lourenço passava dez horas do seu dia dedicado às ilustrações e à noite criava a trilogia do detetive Diomedes. No começo era apenas um álbum, mas o autor gostou muito do personagem, não conseguiu pôr um ponto final em O Dobro de Cinco e deu início a um de seus trabalhos mais famosos comercialmente, agradando crítica e público. Mesmo seu público fiel, acostumado a roteiros mais angustiantes e perturbadores, conseguiu perceber em Diomedes traços psicológicos das criações anteriores, ou seja, Mutarelli mudou o gênero mas manteve sua essência, seu estilo, causando-me espanto. Aprendi a identificar a marca do Lourenço nas histórias do Diomedes.

O detetive Diomedes
A primeira e mais marcante particularidade do protagonista seria a de que ele não resolveria nenhum de seus casos. Um delegado de polícia aposentado, que ocupava seu ócio mantendo um escritório de investigações particulares. O autor prestou também uma homenagem ao seu pai, que serviu de inspiração para a criação da personalidade de Diomedes. Em uma das partes da trilogia o quadrinhista revela que todas as piadas contadas por Diomedes lhe foram contadas pelo seu pai (Lourenço Mutarelli, falecido em 06 de junho de 2001).
Outro elemento fudamental para o sucesso da trilogia foi a inserção de humor nos recordatórios e nos diálogos. É mais uma ironia, um sarcasmo que diverge dos trabalhos anteriores. Diomedes parece muito mais humano. Pode ser que a alusão ao pai tenha tornado o personagem mais real. Suas ações e reações são muito verdadeiras. Sendo assim, suas amarguras, decepções, fracassos e conclusões se tornam muito próximas ao leitor. A grande maioria dos leitores se apegam ao personagem, chegam a torcer por ele. Considero isso um diferencial importante dentro de uma história: fazer com que o leitor vivencie os momentos. Catarse.

A presença do humor evidencia as seqüências melancólicas, como o branco do papel evidencia a linha negra dos desenhos. Muitos dos sentimentos humanos compõem a primeira parte da trilogia. Especialmente a busca, a incerteza e a solidão que acompanham a sucessão dos dias. A procura de Diomedes pelo mágico Enigmo acaba se transformando na busca de si mesmo, encontra-se só, traído e abandonado, ciente do mundo de mentira que construiu ao seu redor. Para Diomedes o mundo se transforma em um circo, mas ele não sabe o papel que deve representar. O autor lhe reserva um final doloroso e patético. Inconcluso.
Se dependesse de mim, Diomedes nunca morreria...
Lucimar Ribeiro Mutarelli
Professora de História da Arte, Mestre em Comunicação pela USP.
Defendeu em 2004 a dissertação de mestrado: Os quadrinhos autorais como meio de cultura e informação: um enfoque em sua utilização educacional e como fonte de leitura. Orientação do Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro ECA/USP
lumutarelli@terra.com.br