

Em entrevista ao jornal “O Globo”, Lourenço Mutarelli revelou que a literatura escrita o fez ser tratado como “gente grande”. O que aconteceu? Lourenço ocupava um espaço único nos quadrinhos nacionais, a partir do momento que excluiu os desenhos e passou a criar somente com palavras, Mutarelli provou que seu sangue é literário.
Leitor incansável de Kafka, Dostoiévski e Jorge Luis Borges, o autor saurpreende mais uma vez com dois títulos: O Natimorto (Editora DBA) e Jesus Kid (Editora Devir).
A experiência adquirida com dez álbuns escritos na linguagem dos quadrinhos, proporcionou ao autor um amadurecimento. Todas as palavras presentes nos dois livros são absolutamente necessárias. Nenhuma sentença parece estar fora de lugar. São cruelmente exatas.
Lourenço Mutarelli é um contador de histórias, seja em quadrinhos, seja em palavras. Assim como o protagonista de Peixe Grande (filme de Tim Burton), o fato de contar histórias o mantém vivo, alerta, interessado. Os dois argumentos são distintos e espantam pela originalidade com que são tratados. O Natimorto poderia se resumir a um agente artístico que é contratado para cuidar da carreira de uma cantora sem voz. Assim como na história do rei nu, só poderão fruir de seu canto aqueles que tiverem o coração puro.
Outro fator interessante é a transformação de imagens que vem estampadas nos maços de cigarros, em arcanos do jogo do tarô. O protagonista tem o hábito de prever o seu dia de acordo com a figura que lhe é oferecida no ato da compra.
Jesus Kid é um trabalho feito sob encomenda. Uma ironia. Uma piada sobre a dor do processo criativo (sofrimento que parece não atingir o autor de quase 1000 páginas produzidas e publicadas ao longo de 13 anos). Inspirado pelo escritor John Fante e por Barton Fink (filme dos irmãos Cohen) Mutarelli foi desafiado a contar uma história enfocando a pressão vivida por um escritor trancado em um quarto de hotel (como desejava viver o Agente de O Natimorto) e as ilusões pretensiosas do mercado cinematográfico brasileiro.
Eugênio (protagonista de Jesus Kid) é um escritor de livros de western, que obtém sucesso junto a seu público fiel. Qualquer semelhança com o autor de quadrinho que é desafiado a escrever outro gênero não será “mera coincidência”.

Mutarelli aproveita a obra para relatar de forma muito divertida seus dias como escritor cobiçado pela mídia. Sem deixar escapar a melancolia existente em suas criações anteriores. Mesmo criando situações de humor, o presente escritor critica a sociedade e continua a especular sobre a inveja, a preguiça, a ganância e outros pecados humanos. Temas universais e que acompanham a literatura desde sua primeira história registrada. Motivos que servem de inspiração há séculos para escritores que se propõem a olhar além do próprio umbigo, com a preocupação única de contar uma história, sem a pretensão de criar algo novo.
A publicação destes dois livros distanciou Mutarelli ainda mais dos quadrinhos. O fato de ser respeitado como escritor o surpreendeu e o seduziu. Parece que a tarefa de fazer quadrinhos tenha se tornado fácil demais e conduziu o autor para o mundo de “gente grande”.
Acredito que o ato de escrever não deveria ser encarado como uma maldição e, muito menos, como uma benção. Deveria ser somente necessário. Necessário para o escritor. Imprescindível para o leitor.
Lucimar Ribeiro Mutarelli
Professora de História da Arte, Mestre em Comunicação pela USP.
Defendeu em 2004 a dissertação de mestrado: Os quadrinhos autorais como meio de cultura e informação: um enfoque em sua utilização educacional e como fonte de leitura. Orientação do Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro ECA/USP
lumutarelli@terra.com.br